terça-feira, 3 de outubro de 2017

CHICO NITÂO


Francisco de Sousa Lacerda

Seu avô, Alexandrino Lacerda de Sousa Albuquerque. Seus pais foram Antonio de Sousa Lacerda (Major Nitão), cearense, e Ana da Costa Ferro, natural de Palmeira dos Índios, Alagoas. Nasceu no Sítio Santo Antonio, na Vila de Misericórdia, no dia 03 de outubro de 1888 e casou-se em 1911 com apenas 23 anos de idade.
Chico Nitão adoeceu pela primeira vez em sua vida, no dia 11 de outubro de 1969 e faleceu no dia 1º de novembro deste mesmo ano, em um dia de sábado. Seu sepultamento foi no Cemitério Mãe de Misericórdia, em Itaporanga, no dia 2, às 10 horas da manhã, hora de sua morte, ocorrida no dia anterior.
Ao perder seu pai, assassinado por questões políticas, Chico se viu na necessidade de vingar a sua morte. Abandonando a política, resolveu convocar José Brunet Ramalho, filho de Misericórdia, mas residente em Pombal, que era parente afim, de sua família, por ter dois de seus irmãos casados com as irmãs dele; para representar a politicamente a família Jenipapo. Brunet foi eleito o primeiro prefeito de Misericórdia e governou a cidade por dois mandatos consecutivos (de 1921 a 1929). Foi o único mandatário na história política, a governar a cidade por duas vezes, sendo isto consecutivamente, ou seja, foi reeleito ou teve seu mandato prorrogado. 
Neste tempo as eleições eram de “viva-voz”, o eleitor se apresentava à mesa e dizia aos mesários pra quem ia o seu voto, eles anotavam aquele voto e em seguida, terminada a eleição. Faziam à a contagem dos votos.
Apesar de ter do seu pai e irmãos à herança de inimigos e por fidelidade aos amigos ter atravessado momentos de intensas lutas, o seu falecimento foi ocasionado por um Acidente Vascular Cerebral (AVC) e teve total assistência de seus filhos, seus netos e sobrinhos, por quem era muito querido e até venerado e recebeu também muitas visitas dos amigos.
Depois de casado, residiu no Sítio Mata de Oitis, pertencente ao distrito de São Paulo, atual cidade de Diamante, que neste tempo fazia parte da Vila de Misericórdia. Na Mata, nasceram os filhos: Anatildes, Anália, Alaíde e José, e na cidade de São Paulo (Diamante), nasceu uma criança, que foi batizada com o nome de Antônio, em homenagem a seu pai. Mas logo após o batismo, o menino faleceu. Atribui-se esse fato a sua esposa ter passado por muitas contrariedades, por seu marido ser considerado um criminoso, ao ter vingado seu próprio pai.
Em 1920, depois de absolvido em júri popular, passou a residir na Vila de Misericórdia, na Rua Pinto Madeiro, em uma casa cedida por seu amigo, o esposo de Dona Naninha Bidô, nesta casa nasceu em 16 de abril de 1922, sua filha Anita. Entre os anos de 1923 e 1924, ocupou-se da construção de sua residência, uma das primeiras casa a serem erguidas ao lado da nova Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Em 18 de agosto de 1925, nasceu seu filho Gerson, que segundo comentários, foi à primeira criança a ser batizada na nova Igreja. Depois nasceu Adália e mais duas, mas as últimas morreram antes de completarem um ano, uma nasceu em 1930 e a outra em 1932; ambas, receberam o nome de Amanda.
Chico Nitão serviu em uma revolução e vários levantes, defendendo a nação como oficial honorário da Polícia Militar do Estado da Paraíba. Na revolução de 30 partiu com um contingente de pessoas de sua confiança, deixando em casa, a sua esposa acamada (de resguardo), pelo nascimento de uma das suas filhas. Findada a revolução, recebeu convite para se incorporar a Polícia Militar do vizinho estado do Rio Grande do Norte, mas não aceitou. Esta participação na insurreição lhe rendeu uma homenagem, foi condecorado como Major Francisco Nitão.
O Major Chico sempre foi um batalhador, perseguiu o bando de Lampião em defesa de várias cidades paraibanas, especialmente as do alto sertão. Um caso que sempre me impressionou, foi a sua preferência absoluta pelo número sete. A sua casa apesar de ser enorme, tem apenas sete quartos, as janelas de sua sala são em número de sete... A casa continua com a mesma estrutura que foi construída no início da década de 30 e era, por seus filhos conservada, tendo as fotografias: de seu avó, do seu pai e do seu grande amigo, José Américo de Almeida, decorando a sua sala principal.
Dizem que Chico Nitão nunca rebocou a área externa de sua residência e nem pintou a janelas, por capricho. Contam que quando o interventor Praxedes Pitanga, seu inimigo político, assumiu as rédeas da pequena e promissora vila, pediu aos munícipes para que deixassem suas casa “mais aparentáveis”.
De minha avó, ainda guardo recordações, mesmo com a idade avançada, sem enxergar bem, conduzia um pequeno rifle, que dizia ser para sua defesa, característica de sua família, Ferro.
Uma questão envolvendo Francesco de Sousa Lacerda (Chico Nitão) com a família Alves. No Sítio Cachoeira houve um baile na casa do Senhor Tibúrcio Alves (pai de Emídio Alves), sendo desarmados e revistados todos ao entrarem no salão, aconteceu que uma filha do dono da casa “cortou”, como dizia naquela época, não queria dançar com um dos rapazes da família Bernardino e daí, surgiu uma forte luta (com as luzes dos candeeiros apagadas), de varas e paus que formavam as cercas da casa; não sobraram nada. Não se sabendo como, apareceu uma faca e na luta, desferiram um golpe mortal, um só golpe, em Erasmo, filho de Tibúrcio Alves, sendo ele, casado com uma irmã de João Crizanto, era, portanto esposo de uma sobrinha de Chico Nitão. 
Chico Nitão foi a casa onde estava acontecendo o velório, visitar o esposo de sua sobrinha e levar suas condolências e ao regressar a sua residência, encontrou um bilhete dos Bernardino, que eram seus compadres; irmãos e sobrinhos, de sangue, do sargento Silvino, um grande amigo seu; pedindo a sua presença na cadeia pública, onde se encontravam presos, em um pequeno quarto, aproximadamente uns 12 homens, todos feridos a pauladas. Achando Chico Nitão, que isto era uma injustiça, pelo fato do morto ter um único ferimento, uma perfuração de arma branca, resolveu procurar um advogado para requerer um habeas-corpus e que a justiça procurasse encontrar o autor do crime e o prendesse.
Vale salientar aqui, que o féretro do Sr. Erasmo Alves foi o primeiro a ser enterrado no cemitério “Mãe de Misericórdia”, inaugurando assim aquele Campo Santo, em 1937. Atualmente se túmolo encontra-se abandonado, entregue as intenpérie do tempo, desprezado pela família e pelos poderes públicos.
Depois disso, o Sr. Tibúrcio inconformado com a morte de seu filho, contratou gente para atacar o Sítio Cravoeiro, que era dos Bernardino, havendo ataques e troca de tiros, saindo sempre vitoriosos, os Bernardino. Por motivo dos familiares do sargento Silvino ter sido soltos, ficaram os Alves, inimigos de Chico Nitão, que alias, não tiveram intervenção alguma em nenhuma das partes, querendo sempre que fosse feito justiça e que fosse descoberto o criminoso; por essa incompreensão, passou a ser perseguido pelo delegado, o Capitão Antônio Pereira, que recebia favores pessoais da família da vítima e apoiado pelo prefeito, a época, Sebastião Gomes, inimigos de grandes questões, dos Nitão.
Tendo sido presas e não liberadas umas ovelhas de Chico Nitão, este procurou não tomar conhecimento, pois a razão estava com o prefeito, apesar de na cidade circularem animais de outras pessoas. Os Bernardino ao tomarem conhecimento do fato, vieram fazer-lhe uma visita e procuraram saber como ele estava, não podendo vir um só, por temerem as emboscadas, vieram dois irmão de Silvino e três sobrinhos, encontrado o amigo calmo, resolveram fazer suas feiras para poderem regressar as sua casa. Ao saírem da mercearia de Gabriel Maia (Gabila), Nezinho Bernardino foi abordado por dois soldados dizendo que o capitão teria mando chamá-los; eles falaram que iria atendê-lo, depois que viesse da casa de seu compadre, Chico Nitão. 
Ao chegarem e revelarem o caso a seu parceiro, Chico Nitão consultou o amigo advogado Adão Alencar, avisando que se Nezinho fosse preso em frente a sua casa, já que a cadeia ficava na mesma praça ele tomaria o amigo como advogado e achou por bem que retirassem o rapaz, para evitar uma agressão a autoridade.
Até a tarde do mesmo dia, veio uma intimação dizendo do não comparecimento de Nezinho. Respondendo por escrito, Nitão informou que o rapaz havia viajado para a cidade de Pombal, onde poderia ser encontrado na residência do primo, Padre Valeriano. Em resposta veio um ofício assinado pelo secretário da delegacia, o civil Irineu Soares, o qual intimava Chico Nitão a comparecer. Ele respondeu, que deixava de atender ao convite por não reconhecer, nenhuma autoridade neste moço. Vindo logo após uma outra intimação assinada, desta vez, pelo Capitão Antônio Pereira, o delegado e a resposta de Chico Nitão, foi que, deixava de atender a intimação, por o delegado ter se feito seu inimigo, sem motivo aparente, ao menos é o que era do seu conhecimento, mas se o mesmo quisesse resolver em um “duelo”, marcasse o local, escolhesse as armas e levasse as testemunhas, pois ele iria convidar o Dr. Paulo Bezerril para ser sua testemunha e o caso seria logo resolvido.
Passados dois dias, o delegado começou a requisitar a polícia das cidades vizinha e de uma volante que se encontrava no município de Misericórdia. Todo esse movimento estava sendo feito na cadeia, que ficava em frente a sua casa. Chico ficou em sua residência, esperando a resposta do convite e no terceiro dia, sem nada receber como resposta, chamou Anízio Alberto, pessoa de sua confiança, saíram e foram para a cidade, até que, ao entrar sozinho na casa do Sr. Matias, um amigo, logo recebeu um recado, através de um filho seu, ainda menor, Gerson, de que João Alexandre avisava que a polícia estava se aglomerando nos arredores da sua casa. Indo a janela, avistou dois soldados em uma esquina próxima, em frente à casa, então, em voz alta, ele disse pra seu filho voltar em casa e chamar dois dos Bernardino e baixando o tom de voz, avisou que eles viessem desarmados, temendo que os mesmos viessem preparados. 
Eles, na ingenuidade, vieram completamente desarmados. O dono da casa pediu: - Chico saia por trás. Ao que ele respondeu: - Nunca sai pelos fundos de casa nenhuma e mais, eu mandei chamar dois amigos e vou esperá-los e sair por onde entrei! Os soldados ao ouvirem a voz de Chico, saíram para a delegacia, que ficava em uma rua pequena e estreita, a atual Rua Vereador Francisco Bidô, por onde ele havia de passar, acompanhado dos dois amigos. Chico ao sair da casa, ouviu os gritos de Luiz Lúcio, vindo do telhado de uma residência: - Cuidado. Os soldados estão te esperando! Ao dobrar a esquina, um soldado virou-se e saiu da delegacia empunhando um fuzil, Nitão parou e recuou um pouco, perguntando: - Que isso menino, você quer me matar? O soldado disse: - Venha! Ele sacou então do seu revólver e os soldados fugiram tremendo. Procuraram correr para a praça, onde teriam a retaguarda dos seus colegas que se encontravam na cadeia pública.
Chico Nitão seguiu em direção oposta, tentando entra em sua casa por trás, pois já ouvia os estampidos na frente. Sua filha mais velha conseguiu fechar a porta de entrada, ficando todas as janelas abertas. O restante da família ficou recolhida em um quarto, foram 45 minutos de troca de tiros e sempre Chico cantando: “A questão de Misericórdia está boa de resolver, quem a fez foi Antônio Pereira, que só leva o tempo a correr, deixando o “patuá” e o “borná” com o “de cumê”. Oh, didim, oh dimdim, oh dimdim, ai lô. Eu agora estou alegre porque meu benzinho chegou! ou dizendo: - Antonio Pereira tua cotação em Princesa Izabel, para Zé Pereira é igual à de Antônio de Jajá para Josué Pedrosa.
O seu filho rapaz, José Nitão, há horas estava na cidade e a sua mulher, aflita, respondia para a filha que perguntava por ele: - Permita Deus, que meu filho tenha morrido com o primeiro tiro, para não estar sofrendo. Chico Nitão ao ouvir isto, disse: - Se conforme. Por que, se seu filho morrer, as ruas de Misericórdia vão se ensaboar com o sangue de meus inimigos.
Seu filho menor, Gerson, sempre a seu lado, procurou retirar de um armador, uma corneta, mas foi atingido por uma casca de bala. Nezinho quando viu o sangue no braço do menino, partiu para saltar para a rua, mas foi contido por Nitão, que falou: - Calma compadre, deixe eles saírem primeiro. Cessados os tiros, ouviram o grito de Zé Nitão: - Abra a porta para o Dr. Paulo e o Capitão Arruda entrarem. Desde o início da contenda, que Zé Nitão estava com Arruda, que a mando do chefe da polícia, tinha vindo buscar uma solução para o caso.
Ao abrirem a porta, eles entraram e anunciaram que tinham uma proposta do delegado e retiraria os soldados e Chico Nitão e os Bernardino ficarian em paz. Feito o acordo, chega um portador com um bilhete, para os presentes, dizendo que Lucas de Argemiro iria entrar na cidade com um grupo de homens. Isso foi porque o cunhado de Chico Nitão tinha colocado uns capangas em um piquete, para correrem atirando e dizerem que estavam com trinta homens. Chico Nitão então falou: - Arruda, que ele vem, eu acredito. Porque ele não é homem de me ver em apuros e não aparecer, ele vem e vem sozinho, arriscando a própria vida. Se tiver acontecido algum mal a meu cunhado, tirem os familiares de Misericórdia e deixem eu e Antônio Pereira, nos acabarmos.
Nesta história houve uma passagem que deu provas de amizade a Chico Nitão e aqui, eu não posso deixar de citar: Um senhor vinha tangendo uns jumentos, carregados de tijolos, soltou os animais e conseguiu entrar pelos fundos da casa de Chico Nitão e pedindo, lhe falou: - Compadre me dê uma arma que quero lutar a seu lado. Resolvi contar esse caso porque há muitos anos, esse senhor faleceu, e com imensa gratidão digo que seu nome era José Pretinho, ou José Martins da Silva. Irmão de João Pretinho e tio do professor Dedé.
A casa de Chico Nitão, por um capricho seu, continua com a frente com os tijolos a mostra, sem acabamento e as portas e janelas sem pintura, estas esquadrias foram feitas em madeira de lei, o cedro, a época, muito raro no comércio local.
Irmãos de Chico Nitão: José, Pedro e João. Irmãs: Maria Perpetua, Rosa, Laura, Afra, Mariquita, Alice e Donana, todas falecidas. Esposas de seus irmãos: Anatildes e Senhorinha Ramalho. Esposos de suas irmãs: Pedro Afonso, João Ventura, Luiz Lacerda, Lucas de Argemiro, Francisco Diniz e Júlio Miguel. Esposa de Chico Nitão: Maria de Sousa Lacerda Nitão.
Depois de muito pesquisar, descobri sua preferência pelo número sete, é porque, para ele era o símbolo da vida e da fartura. Ele esta sepultado no Cemitério Mãe de Misericórdia.
 Com manuscrito de Anita Nitão

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