sexta-feira, 29 de setembro de 2017

TRANSPLANTE DE PÊNIS. CIRURGIA BEM-SUCEDIDA APÓS AMPUTAÇÃO POR COMPLICAÇÃO DECORRENTE DE CIRCUNCISÃO RITUAL


Um transplante de pênis restaurou as funções normais em um jovem sul-africano que precisou de amputação do membro por conta de gangrena – o quadro se deu após uma circuncisão ritual.

Por: Dr. Will Boggs / Fontes: http://bit.ly/2w489cd e http://bit.ly/2wFur6P 

As complicações decorrentes da circuncisão ritual são uma das principais causas de perda de pênis em homens jovens na África do Sul. Cerca de 250 homens jovens por ano necessitam amputações (de variados graus) do pênis, e as infecções associadas e a subsequente septicemia causam 100 mortes por ano.

O Dr. Andre van der Merwe, da Stellenbosch University e do Tygerberg Academic Hospital, na Cidade do Cabo (África do Sul), e colegas, relatam o primeiro procedimento funcionalmente bem-sucedido de alotransplante de pênis, com 24 meses de seguimento, em um homem de 21 anos que havia sido tornado eunuco, três anos antes, por causa da ocorrência de gangrena após uma circuncisão ritual.

O tempo de isquemia de frio foi de 16 horas, porque a mesma equipe que realizou este transplante teve de priorizar o transplante de um rim do mesmo doador, de 36 anos, com
morte cerebral e coração ainda batendo.

O receptor recuperou-se da anestesia sem complicações, e em seguida recebeu imunossupressão com globulina antithymocyte intravenosa, seguida de prednisona, tacrolimus e micofenolato.

O pós-operatório foi complicado por trombose de uma anastomose arterial – que se resolveu após trombectomia de urgência e re-anastomose bem-sucedida –, por um hematoma infectado, que exigiu um procedimento menor, e pelo desenvolvimento de uma fístula uretro-cutânea que necessitou de reparação cirúrgica.

Relações sexuais satisfatórias
O destinatário relatou uma primeira ereção três semanas após a cirurgia e, contrariando a recomendação de abstinência por pelo menos três meses, relatou uma relação sexual penetrante satisfatória cinco semanas após a operação.

Seis meses após o transplante o paciente relatou a gravidez de três meses da parceira, mas esta terminou por dar à luz um bebê morto a termo, de acordo com o relatório de 17 de agosto no Lancet on-line.

Dois anos após a operação, o paciente está indo bem, sem episódios de rejeição. Ele relata relações sexuais regulares satisfatórias em uma relação estável com ejaculação e orgasmo normais.

Adolescentes masculinos sul-africanos durante ritual de circuncisão.

 "Nossas descobertas mostram que o alotransplante peniano é viável, e pode resultar na restauração de função sexual, sensação peniana e micção normal", concluem os pesquisadores. "Também enfatizamos a importância da seleção cuidadosa dos pacientes em termos de saúde física, estabilidade emocional e psicológica, e adesão ao tratamento".
Cirurgia para mudança de sexo

"Este caso também pode gerar hipóteses de que a cirurgia de transformação de gênero de sexo feminino para masculino possa se beneficiar, em casos selecionados, além da revascularização em impotência vasculogênica poder ser revista, e outras causas de perda completa do pênis podem ser abordadas dessa maneira no futuro ", acrescentam os pesquisadores.

Dr. Arthur L. Burnett, da Johns Hopkins University School of Medicine, Baltimore, que é coautor de um editorial que acompanha o artigo, disse à Reuters Health por e-mail: "O resultado relativamente durável é impressionante. Também é reconfortante saber que um órgão corporal não essencial, ao contrário de um coração ou um fígado, pode ser mantido com o paciente fazendo o cumprimento de seu regime de imunossupressão ao longo do tempo. "

"O transplante do pênis pode ser considerado um procedimento de transplante válido como o de outros órgãos", afirmou. "Espero que essa perspectiva permita uma maior aceitação, no futuro, desta opção para o gerenciamento de condições de perda de pênis."
"As equipes precisam se preparar bem e incluir uma variedade de especialistas que atendam a vários requisitos clínicos, psicológicos e éticos, para que esse esforço seja bem-sucedido", acrescentou o Dr. Burnett.

O Dr. Ryan P. Terlecki, diretor da Clínica de Saúde Masculina da Wake Forest Baptist Health, em Winston-Salem, Carolina do Norte, afirmou à Reuters Health por e-mail: "O alotransplante do pênis é viável, mas não deve ser considerado simples. Esta é uma operação que requer uma abordagem multidisciplinar que inclui urologista, cirurgião plástico, cirurgião vascular e equipe de transplante. O estado psicológico dos candidatos deve ser investigado minuciosamente antes da cirurgia, bem como os recursos dele para enfrentar inúmeras visitas médicas, e um plano para cobrir o custo da terapia de imunossupressão".

"Como um centro que também é aprovado para esta operação, é importante escolher os pacientes cuidadosamente com base no evento anterior necessário para se considerar esse procedimento", disse ele. "A perda do pênis por patologia benigna é também uma indicação válida".

Consentimento da família dos doadores
"Quando as notícias mostraram este caso da África do Sul, nossos telefones começaram a tocar com pedidos de homens que simplesmente queriam um pênis maior ou ereções melhores", disse Terlecki. "A ocorrência de ereções após este caso não seria surpreendente, pois o paciente provavelmente estava tendo ereções de seu coto do pênis antes da cirurgia e a sinalização nervosa ocorre a montante da anastomose. Assim, não seria de esperar que essa operação daria função erétil a um homem que a perdeu devido a patologias relacionadas a doenças nervosas ou vasculares."

A Dra. Keymanthri Moodley, diretora do Centro de Ética e Direito Médico da Stellenbosch University, que não esteve envolvida no trabalho, salientou à Reuters Health que"a questão interessante em torno da procura de consentimento de famílias de doadores, que estão em luto, para doação de um pênis, em comparação com outros órgãos, é que é uma forma de mutilação externa do cadáver. "

"Isso teria significado em culturas que valorizam a preservação do corpo humano mesmo após a morte", disse ela.

Neste caso particular, a família do doador concordou com a doação apenas depois de ter sido assegurada, pela equipe cirúrgica, que eles formariam um falo falso de tecido abdominal para se parecer com um pênis, por razões estéticas, um procedimento que levou cerca de 30 minutos para completar.
Dr. van der Merwe não respondeu ao pedido da Reuters Health para comentar o caso.

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