quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Se correr, o bicho pega, se ficar...


Os militares já governaram o país. Eu era menino e matuto, não senti na pele os males da ditadura. Naquele tempo, tínhamos a imagem de um Garrastazu bonzinho, com o rádio de pilha escutando o jogo e torcendo pelo Brasil. Papai adorava Gastazzu e Geisel. Ele e todos os moradores de Princesa, à exceção de Paulo Mariano, refugiado nas terras do pai desde quando participou de carreatas contra o regime no Rio de Janeiro.

Mas Paulo, mais velho do que nós, assombrava a meninada com sua barba enorme e os cabelos cobrindo os ombros. Acho que somente Antonio Eugenio não tinha medo de dele, pois tentou conquista-lo no seu beco escuro depois que Paulo foi desiludido pela linda moça do Monte Carmelo.

Somente depois que aportei na cidade grande é que tomei conhecimento do que seria a revolução.

Volto, porém, aos tempos de sertão.

Houve um bate boca entre o velho Miguel e um, digamos assim, comunista, que chegou por lá destratando o presidente.

O velho ajeitou a faca e desafiou: -Se está contra a revolução, está contra Geisel. E se está contra Geisel, está contra Cumpade Antonio. E quem for contra Cumpade Antonio, é contra
mim. E quem vier contra mim, eu como na faca”.

Claro, a gente era feliz e isso é o que importava.

Viemos para a cidade grande. Ouvi relatos sobre o que a ditadura fez. Jório Machado foi torturado, outros foram presos e levados para Fernando de Noronha. Muitos morreram sob tortura, no cacete e no tiro.

Sinceramente, eu não gostaria de conviver com essa ditadura tão reclamada pela turma da direita.

Mas, aqui pra nós, o que é pior no momento: a turma da farda verde oliva ou essa que deveria estar vestida de listras e morando na Papuda?

Lembrem-se que essa segunda opção é a que nos governa. Ou seria melhor dizer “desgoverna”?

Tião Lucena

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