quinta-feira, 21 de setembro de 2017

O MAL


Onildo Sitonio

Que absurda e intensa redoma cerebral,
esse capacete branco, nas brancas nuvens da memória,
velando todas as lembranças e toldando, no total,
as reminiscências e as cartas da tua história!
Te perdeste, no labirinto falso do existir,
na horrenda falcatrua falaciosa do porvir,
numa noite terrivelmente longa e vadia,
mesmo sendo, agora, pleno dia!
Eu te perscruto, ouço teu coração a palpitar.
E não percebo, mais , os sons intensos, o pulsar,
o inevitável desejo de amar,
a inebriável sensação de acolhimento,
posto que a maldita embotou teu sentimento!

Aonde estás, meu nobre amigo?
Sinto esse teu olhar grudado no infinito.
Não vejo, mais, os teus grandes gestos,
não ouço, mais, os teus fortes gritos.
Tudo se resume a essa magnífica solidão!
E os apetrechos da tua eloqüência,
os brados varonis, os impulsos guerreiros gestuais,
se perderam, com a estúpida demência,
com o adormecimento da tua percepção
que, segundo os médicos, não voltarão, jamais!
Sinto te dizer: aqui um cérebro descomunal jaz!
Cadê o teu inglês, o teu português distinto,
teu alemão, tuas tantas obras escritas,
as coisas que disseste e hoje não são ditas,
teu sábio e literário paladar, por obras primas,
as muitas canções, as tuas rimas,
os teus saraus, os teus incontáveis textos profiláticos,
os teus grandes e reluzentes relatos midiáticos?
Aonde estás?
Um lençol escuro te cobriu, vestiste o luto vil
pela morte da tua consciência!
Não nos procuras mais! Até o teu copo empreteceu!
O banco que usavas, a mesa , as garrafas,
(que espelhavam a tua bela e avermelhada imagem),
por causa da tua apressada viagem,
aquilo tudo, no tempo se perdeu.
Sei que não voltas, o teu tempo está perdido!
Mas, ficará, para sempre, na lembrança de todos os pertences,
desde o mais humilde sapateiro ao doutor da lei ,
do teu gato magro, do teu cachorro vira-latas,
da tua companheira, linda, de tantas serenatas,
das namoradas muitas que nem sei,
a tua risada aberta, o teu olhar vibrante,
o teu falar bem alto, um som de alto-falante,
o teu abraço apertado, a roupa elegante.
E o teu saber!
Como não sofrer, ao te ver assim?
Quando no futuro estiveres,
pede a Deus por mim!
Pois um dia, nem sei nem me é dado prognosticar,
alguém pode vir a comentar,
que me viu como te vi, resto de gente,
com esse olhar ausente e sem sentido,
sem algum sintoma natural,
a padecer desse terrível mal,
que até dizer o nome é sofrer...
MAL DE A L Z E I M E R!
Lauro de Freitas, 19deSetembro2017

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