quinta-feira, 14 de setembro de 2017

O BLOG TAMBÉM É CULTURA , OS 100 ERROS DE PORTUGUÊS MAIS COMUNS… SERÁ?

Pela internet aparecem frequentemente listas de “100 erros de português” (que já começam com uma escorregada, usando o algarismo 100 para introduzir a frase, quando um simples “Cem erros de português” ficaria muito mais elegante – mas isso é compreensível).

O revisor, apesar de aplicar normas e padrões no texto, buscando torná-lo mais claro, deve estar atento: saber dos casos em que as regras se aplicam, quando não se aplicam, quando é caso opcional, quando sequer há regras e, além disso, desconfiar sempre das regras que acredita dominar.

Muitos modismos, creio, surgem de formas e regras que são disseminadas e tomadas como sendo “as únicas corretas”. Elas vão sendo replicadas automaticamente, incessantemente, até se tornarem clichês não raro vazios de significado. Isso faz com que, por outro lado, formas parecidas, que se assemelham muito a esses modismos, sejam tomadas como formas erradas de se falar ou de se escrever.

Veremos ao longo deste post alguns exemplos disso; e, embora eu não vá abordar todos os cem casos (por questão de tempo e economia de espaço), a ideia que desejo passar é a de que devemos sempre pesquisar todas as regras, convenções e normas da língua, buscando autores e pesquisadores que dominam tais questões. Seja um blog, site, trabalho acadêmico ou uma gramática já clássica, todos esses meios devem sempre ter a responsabilidade de transmitir informações sobre a língua com base em pesquisas, em argumentos sólidos, e não com base em simples opiniões ou justificativas como “a maioria escreve assim”, “sempre foi assim” ou em achismos de qualquer tipo.

A intenção aqui não é discutir conceitos de norma culta e língua-padrão, dicionarização, estilística ou critérios que o revisor deve adotar, tampouco relativizar o português e suas regras e estruturas, mas mostrar que certas prescrições não são verdades absolutas e que, acima de tudo, ao escrever, revisar ou compor um texto você tem muito mais liberdade do que imagina – o que também equivale a mais riqueza.

A CHAMPANHE / O CHAMPANHE
“O correto é ‘o champanhe’, e não ‘a champanhe’, pois ‘champanhe’ é substantivo masculino.”

Não é verdade. O próprio Volp, autoridade nacional no registro de vocábulos da língua portuguesa, registra “champanhe” como substantivo de dois gêneros, ou seja, pode ser masculino ou feminino.

Uma justificativa para tratar “champanhe” como substantivo masculino é a de que o Dicionário Aurélio registra apenas essa forma. O Aurélio também registra “lingerie” apenas como masculino (‘o lingerie’), mas, sinceramente, nunca ouvi ninguém tratar esse verbete com essa rigidez (ou seja, como tendo apenas um único gênero); e o Aurélio, em detrimento do Volp, do Dicionário Houaiss e do Aulete, é o único que registra “lingerie” apenas como masculino. Entretanto, dizer algo como “comprei alguns lingeries” soa tão afetado para mim quanto dizer “o champanhe”.

Isso mostra que talvez o Dicionário Aurélio não esteja registrando as mudanças conforme elas acontecem. E isso é normal: nenhum dicionário consegue acompanhar, em “tempo real”, as mudanças na língua e o modo como os falantes vão modificando palavras e estruturas. Um exemplo atual disso é o selfie versus a selfie. O tempo dirá qual forma prevalecerá (ou até mesmo se ambas conviverão por um bom tempo lado a lado).

Outra justificativa é a de que “champanhe” viria do francês champagne, e que, já que no francês o termo só é tratado como substantivo masculino, assim deveria ser também no português.

Isso é bobagem. De língua para língua, vocábulos idênticos ou emprestados mudam de gênero. O exemplo de ‘lingerie’ acima ainda serve. O Volp registra tal palavra apenas como substantivo feminino: ‘a lingerie’. O mesmo faz o Dicionário Houaiss. O mesmo faz Luft, no seu ABC da Língua Culta. O mesmo faz o Dicionário Aulete. Escolha seus aliados.

Você não só é livre para falar/escrever a champanhe ou o champanhe como também é livre para usar a forma “champanha”; porém, neste caso, o substantivo será sempre feminino: ‘a champanha’.

Para saber mais sobre isso, há três artigos ótimos do professor Cláudio Moreno: “A champanha”, “O gênero e a champanha” e “Champanha em Paris”.

A CORES / EM CORES - A DOMICÍLIO / EM DOMICÍLIO

“O correto é ‘TV em cores’, e não ‘TV a cores’, já que não dizemos ‘a preto e branco’, mas sim ‘em preto e branco’.”

“Só se deve usar a preposição ‘a’ com verbos que expressam movimento; logo, o correto é ‘entrega em domicílio’.”

Outra justificativa neste caso é que ‘a cores’ seria galicismo, ou seja, um empréstimo do francês. Porém, no francês, neste caso, não se usa a preposição ‘a’, sendo o usual “en [em] couleurs”. O que aconteceu foi uma confusão, para não dizer ignorância, ao acusarem de galicismo algo que não tem nada a ver com o francês e que surgiu espontaneamente no português, por uso.

Outro problema (e um fato linguístico um tanto desconhecido) é que, como diz Cláudio Moreno, não há nenhuma obrigatoriedade de se usar a mesma preposição em casos de paralelismo semântico:

“Voltei para casa a pé” > “Voltei para casa de carro”.

Celso Luft simplifica isso: “TV a cores” é um uso; “TV em preto e branco” é outro uso. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Quanto a em domicílio, o problema é praticamente o mesmo, e Luft (2010) diz:

Regra purista: em domicílio, quando sem movimento – lecionar em domicílio; a domicílio, com movimento (levar, trazer, ir) – levar algo a domicílio. Regra desmentida pela prática, pois o uso é a domicílio, nos dois casos: leciona piano a domicílio, atende a domicílio, leva roupa lavada a domicílio. Possível explicação do a domicílio sem movimento: leciona (indo) a domicílio, atende (indo) a domicílio, etc.

Para não me prolongar mais, prefiro deixar mais um artigo do professor Cláudio Moreno falar por mim.

AGRADECER A / AGRADECER POR

“O correto é agradecer a alguém alguma coisa.”

Realmente é correto agradecer sempre, mas essa explicação simplista ignora totalmente algumas prescrições de regência. Luft, que é uma das maiores autoridades em regência (devemos nos lembrar de seus clássicos dicionários de regência verbal e nominal – ferramentas indispensáveis para revisores, estudantes e outros profissionais), diz que também ocorre a sintaxe “agradecer por algo” devido à significação de “causa ou motivo” da ação de agradecer

Logo, ambas as formas são corretas: “agradecer a alguém [algo/por algo]”, “agradecer [alguém] por algo”.

CORRER ATRÁS DO PREJUÍZO / CORRER ATRÁS DO LUCRO

“Ninguém corre atrás do prejuízo, corre-se atrás do lucro e foge-se do prejuízo.”

Essa explicação, incrivelmente superficial e baseada numa lógica demasiado restrita, ignora totalmente as operações de uso pelas quais a língua funciona. Este artigo de Sérgio Rodrigues explica isso, mas se ainda assim isso não convencer você de que a língua não opera apenas com base na lógica, recomendo mais este artigo do Cláudio Moreno.

ANEXADOS / EM ANEXO

“Anexado(a) é somente adjetivo; nunca é advérbio, por isso a forma em anexo é errada.”

Mais uma vez, Sérgio Rodrigues explica neste artigo o que vem se passando para que a expressão em anexo venha sendo tratada como erro. Ele também explica que não é errado interpretar em anexo como uma construção formada por preposição + substantivo.

Além disso, Bechara (2009) explica na sua Moderna Gramática Portuguesa:

Anexo, apenso e incluso – Anexo, apenso e incluso, como adjetivos, concordam com a palavra determinada em gênero e número:
Correm anexos (inclusos, apensos) aos processos vários documentos. Vai anexa (inclusa, apensa) a declaração solicitada.
Observação: Usa-se invariável em anexo, em apenso: Vai em anexo (em apenso) a declaração. Vão em anexo(em apenso) as declarações.

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