quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Atuação sociopolítica do padre José Sinfrônio de Assis Filho no município de Itaporanga, Paraíba


Michell Alves de Almeida Ricarte1 Graduando em História - UFCG - michellricarte99@gmail.com 

RESUMO: esse artigo tem por objetivos analisar a atuação sociopolítica do padre José Sinfrônio de Assis Filho (Padre Zé) e que imagem foi criada de tal figura, no município de Itaporanga, Paraíba. Para tal, foi utilizada a História Oral, mas também fontes impressas. A análise das fontes mostrou que o referido padre foi um dos maiores benfeitores da cidade, empreendendo, apenas em nível de exemplos, a construção do maior ponto turístico do município (uma escultura do Cristo Redentor, uma das maiores do Brasil e do mundo), e contribuindo para a instalação do Hospital Distrital da cidade. Mostrou também que essa é a imagem que, de uma forma geral, permanece do religioso: um homem que trouxe muitos benefícios ao município de Itaporanga. Mais que um simples padre, um militante que teve atuação para além da batina. Palavras-chave: Padre Zé; Atuação sociopolítica; Narrativas.

1 Graduando em História pela Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) e membro do Programa de Educação Tutorial do curso de História (PET-História), UFCG.

1. INTRODUÇÃO
José Sinfrônio de Assis Filho, o tão conhecido no município de Itaporanga,PB (e todo Vale do Piancó) Pe. Zé, foi um dos maiores benfeitores da cidade que o acolheu. O presente estudo tem como objetivos analisar a atuação sociopolítica de Pe. Zé no município referido
e que imagem foi construída, ao longo do tempo, de tal figura ilustre. Quando se pensou em fontes para que tal pesquisa pudesse ser empreendida, imaginou-se logo no recolhimento de narrativas acerca da vida e obra do religioso a partir da História Oral.

Foram entrevistadas pessoas que conviveram direta ou indiretamente com o padre e alguns que, inclusive, escreveram sobre o religioso. Duas entrevistas em especial se destacaram, devido a clareza com que os depoentes narraram os acontecimentos, as histórias, relataram suas memórias; a entrevista com o jornalista Paulo Rainério Brasilino – que pesquisa bastante a história da cidade de Itaporanga e, que em algumas partes de um livro que escreveu sobre a história local2, fala sobre o padre – e também a entrevista com o professor Francisco Raimundo da Silva – que,além de ter feito sua dissertação de mestrado a respeito da importância de Pe. Zé para a educação de Itaporanga, conviveu durante muito tempo com o sacerdote, e hoje é diretor do colégio fundado por ele.

Para o estudo, também foram usadas fontes impressas como, por exemplo, a literatura de cordel, em especial, foi importantíssimo o cordel “A chegasse de padre Zé ao céu”, escrito pelo jornalista Sousa Neto e que representa bem o que significa a personagem estudada para o povo da cidade. Utilizou-se também de notícias jornalísticas veiculadas em jornais locais.

Padre Zé foi muito mais que um simples padre, não foi um religioso que se limitava à batina, foi um líder local, e um dos maiores líderes que Itaporanga já teve. O presente trabalho tem como abordagem principal, com relação às fontes, a História Oral e, como dimensão historiográfica principal, a História Política, pois entende-se que tal estudo tem muito a ver com relação de poder. Remond já dizia em “Por uma História Política” :
“Na verdade o campo político não tem fronteiras fixas, e as tentativas de fechá-lo dentro de limites traçados para todo o sempre são inúteis. Já que não se pode definir o político por uma coleção de objetos ou um espaço, somos levados a definições mais abstratas. A mais constante é pala referência ao poder: assim, a política é a atividade que se relaciona com a conquista, o exercício, a prática do poder” (REMOND, 1996, p. 443-444)
Neste sentido, entendendo que o “político” é muito mais do que exercer cargos em poderes como o executivo, o legislativo, etc; e está, antes de tudo, relacionado principalmente

2 Trata-se do volume 1 do livro “Se essa rua fosse minha”, lançado em 2016.
à noção de poder – e tendo em vista que poder e influência o religioso tinha muito – justifica-se o enquadrar-se do trabalho na dimensão de História Política, principalmente, mas, claro, também envolve outras dimensões, como a História Social, por exemplo.

2. ORIGEM DE JOSÉ E CHAGADA À ITAPORANGA
A relação muito próxima que teve José Sinfrônio com a cidade de Itaporanga, faz com que muitos pensem que ele era, de fato, itaporanguense de nascimento, mas não. De origem humilde, José nasceu no Sítio Barroso, no município de Cajazeiras no dia 24 de maio de 1924.

Quando criança, ele e seus irmãos tiveram que ajudar a seu pai nos afazeres para contribuírem na renda. Trabalhou com a agricultura3 e, logo depois, quando ele e sua família se mudaram da zona rural para a cidade de Cajazeiras, José começou ajudar seu pai em uma carpintaria. Com muito esforço, começou a estudar com uma professora conhecida como Sinharzinha4 que, ao ver no menino algo de especial, o encaminhou para ser coroinha da paróquia. Isto foi essencial para que ele conseguisse entrar como aluno bolsista da escola comandada pelo diocese , o Colégio Padre Rolim.

Veio a doença e morte de seu pai. Alguns contam que, ao ver as vestimentas do padre que foi ouvir as confissões de seu pai antes de falecer, o jovem José teria se encantado pela missão sacerdotal, e decidiu segui-la (o que não foi uma coisa tão fácil de dizer à sua família, visto que muita gente dizia a ele que a vida de padre não seria fácil, pois se tratava de uma profissão sofrida, desprovida de recursos materiais, etc; mas, por outro lado, como bem narra Rainério, à época, em um período em que as pessoas eram bem fervorosas na fé católica, ter na família um filho padre era uma honra enorme.). O jornalista Damião Lucena certa vez escreveu: “Decidido de sua vocação, o ingresso no Seminário, em João Pessoa ocorreu no dia 2 de fevereiro de 1939. A ordenação do Padre José Sinfrônio se deu em primeiro de novembro de 1951. O primeiro período, de trabalho, que ultrapassou um ano e meio foi na cidade de Pombal, na condição de cooperador do Monsenhor Vicente. Depois chegava a Cajazeiras para ser secretário do bispado, no tempo de Dom Zacarias Rolim de Moura. Posteriormente quando o Seminário que teve a sua participação na edificação ficou pronto, o Padre Sinfrônio era deslocado para Itaporanga, no propósito único e exclusivo de servir ao povo.”5 (LUCENA,s/d, s/p)

3 Fazendo pequenos serviços, visto que ainda era muito criança.
4 Conciliava os estudos com as atividades que empreendia junto ao pai. 5 Em sua revista intitulada “Revista Monumento ao Cristo Rei: um lugar mais perto de Deus”.

Segundo Francisco Raimundo, a sua ida a João Pessoa foi devido ao seminário da Diocese de Cajazeiras ainda não oferecer o curso de Teologia, só o de Filosofia. Padre Zé estudou no seminário da Arquidiocese da Paraíba. De acordo com o professor, o motivo principal para a chegada do padre à Itaporanga foi a obediência que ele tinha à Igreja, mas sua ida também deveu-se a nenhum outro sacerdote querer ir comandar a paróquia da cidade, devido a conflitos6 que se tinha à época: “Matava-se um numa feira e já ficavam dois para serem assassinados na próxima feira”, diz Raimundo. E, de acordo com Rainério, Dom Zacarias, bispo da Diocese de Cajazeiras7 à época, observava quem tinha destaque nas funções burocráticas. Viu a capacidade que tinha José e achou que Itaporanga era o lugar adequado pra ele. O sacerdote chega à cidade no ano de 1955. 

3. O BENFEITOR DE ITAPORANGA 
O título não é em vão. Pe. Zé foi um dos maiores benfeitores da cidade de Itaporanga, quiçá, o maior. O religioso foi atuante nas áreas da educação, da saúde, assistências social e muitas outras. Pedindo doações, construiu escola, ajudou pessoas mais necessitadas em época de grande estiagem,etc. Foram muitas as suas obras e, ao longo desta parte do artigo, falarei um pouso sobre algumas delas. Quando padre Zé chegou à cidade de Itaporanga, o lugar passava por conflitos entre famílias que se digladiavam pelo poder político. Durante as entrevistas, notei que as pessoas falavam muito em famílias como a Nitão, Paulo, Jenipapo e Herculano. Nitão x Jenipapo e Paulo x Herculano. Mas não apenas estas. Muita gente morria durante estes embates. A figura dos pistoleiros de aluguel era bastante conhecida em todo o Vale do Piancó (dois dos mais conhecidos ficaram conhecidos como Ourinho e Luquinhas), e a antiga Misericórdia8 não fugia a regra. 

O padre viu nisto um problema enorme e logo empreendeu esforços para que tal querela fosse solucionada. Uma de suas iniciativas foi a criação de um organismo na paróquia que ficou conhecido como Cruzada Eucarística, que tinha como objetivo principal a catequese de jovens, mas que, atrelado a isto estava a vontade que o padre tinha de juntar pessoas que brigavam.

6 Mais à frente comentaremos mais a respeito disto.
7 A Paróquia Nossa Senhora da Conceição, de Itaporanga, pertence à Diocese de Cajazeiras.

8 Antigo nome de Itaporanga.
Aos poucos, por meio de encontros e conversas, Pe. Zé foi mostrando que aquilo era errado e só causava prejuízo às famílias envolvidas. Ele chegou muitas vezes a convidar filhos de pais que eram rivais para conversarem, e todos acatavam pois ele era muito respeitado. Durante as atividades da Cruzada Eucarística também ocorriam retiros, missões para arrecadar fundos para ajudar as pessoas carentes da cidade, etc. Em uma região como a de Itaporanga, pertencente à mesorregião sertaneja, assolada pela seca, e desprovida de boas políticas públicas, as condições socioeconômicas da grande maioria da população não são boas. À época de Pe. Zé a coisa era pior ainda, pois não haviam programas sociais que ajudassem as pessoas de baixa renda, como existem hoje. Muita gente narra que em épocas de longos períodos de estiagem, as pessoas muito dependentes da agricultura familiar, não tinham como plantar para produzirem seu próprio alimento e vender o que sobrava. Em períodos assim – que não eram nada raros – eram comum os saques às feiras-livres e aos armazéns, por populares em busca de gêneros alimentícios básicos como arroz e feijão. Padre Zé também quis dar um basta nisto e, logo que percebeu a gravidade da situação, começou a empreender campanhas pedindo doações aos que tinham mais condições, para que pudesse distribuir aos pobres. Certa vez, tirou da delegacia alguns populares que haviam sido presos por saque de comida, e garantiu ao delegado da cidade à época que isto não iria mais acontecer. Os saques pararam. Todos respeitavam ao padre, ele se fazia presente em vários aspectos da vida do cidadão itaporanguense. Na segunda metade do século XX, época em que o Governo Federal lançou o Funrural (ou Fundo de Assistência ao Trabalhador Rural) o padre já tratou de, junto à prefeitura da cidade, fazer o mapeamento dos trabalhadores rurais que necessitariam da ajuda previdenciária do programa. Ele ajudava as pessoas que não tinham muita instrução, recebendo a documentação necessária para cadastro e as ajudando em todos os trâmites legais e burocráticos para que fossem cadastradas. Apesar da atuação de Pe. Zé ter sido mais na zona urbana, ela também ocorreu na zona rural. Ele sempre fazia visitas às comunidades rurais para prestar assistência, saber do que as pessoas estavam precisando, etc. Muitas vezes levava médicos para atenderem pessoas que, devido a idade e problemas greves problemas de saúde, não conseguiam ir à cidade
fazerem consultas 

9. Em Itaporanga, sempre viveu nas dependências da casa paroquial, nunca chegou a construir uma casa pra si, mas ajudou muitas, por meio de doações, a construírem as suas residências. Para muitos, a área em que o sacerdote mais ajudou foi a educação local. 

Segundo Brasilino (2016, p. 301), “foi na área da educação seu maior legado para Itaporanga e região do Vale do Piancó”. Quando chegou à cidade no ano de 1955, existiam já algumas escolas, mas todas de nível primário10. A única que ia além do que hoje chamamos de Ensino Fundamental I, Escola Normal para Moças Padre Diniz

11, como o próprio nome já diz, era apenas para mulheres. Esta instituição era comandada (e até hoje o prédio pertence à congregação, mas, agora, alugado ao governo do estado) pela Congregação das Irmãs Missionárias Carmelitas, e formava à época meninas que faziam o curso Normal, para que pudessem exercer o magistério infantil. Para os homens, o que se tinha na cidade eram instituições de ensino infantil e não havia o que hoje se chama de Ensino Fundamental II disponível a eles. Padre Zé viu nisto um problema, pois os jovens que acabavam o ensino primário não tinham como continuar os estudos em Itaporanga. Os que eram de famílias mais abastardas, eram enviados a cidades mais desenvolvidas, como Patos, Cajazeiras e Campina Grande. Os seminários destas cidades, e outras, muito ajudaram na época, pois os pais colocavam seus filhos neles por não poderem pagar escolas particulares. Posta esta realidade, logo no ano seguinte a sua chegada, o sacerdote foi logo empreendendo a fundação da Escola São Domingos Sávio

12. Nesta escola também estudavam a catequese, além da Matemática, História, e demais disciplinas tidas como mais tradicionais. De princípio a escola funcionou, devido não ter prédio para que fosse instalada, na própria sacristia da paróquia. Posteriormente a escola ficou conhecida como Escola Paroquial, devido a ter passado a funcionar na Casa Paroquial13, visto que o espaço da sacristia mostrou-se reduzido, e a estrutura do centro era mais adaptada. Mas, no centro deveria também funcionar as atividades da paróquia e, com o tempo, os choques de horário naturalmente ocorreram.

9 Usava muito a garupa de burros e de cavalos.
10 Um exemplo que pode ser citado é a do Grupo, em1936 Dom Vital Maria Gonçalves de Oliveira e, quando foi encampado pelo estado, José Simeão Leal. Hoje é EEEF Simeão Leão.
11 Devido a família deste padre (Joaquim Ludjero Diniz) ter doado o terreno para a construção da escola.
12 Em homenagem ao santo italiano que, dentro da tradição católica romana, é o padroeiro dos acólitos, dos jovens e das crianças. 13 Hoje Centro Pastoral João Paulo II

O padre não pensou duas vezes, decidiu construir do zero uma escola e, no ano de 1957 os trabalhos foram iniciados. Para que tal vontade pudesse ser concretizada, ele precisaria muito de recursos financeiros. Pedir, mais uma vez, foi a opção que escolheu, mais uma vez. Percorria o município em busca de doações. Geralmente montado em um burro, algumas pessoas os seguiam e ajudavam nesta empreitada. Durante as entrevistas e as conversas que foram necessárias para a escrita deste texto, notei que as pessoas, em especial as da zona rural falaram muito num tal de “arroz do padre”. Assim era como muitos chamavam a parte de colheita que reservavam para fazerem suas doações. O padre não só recebia arroz ou feijão, mas também ovos, galinhas, queijos; produtos que ele trocava em tijolos, cimento e madeira, para a construção do educandário. Já foi discutida a questão das estiagens, mas claro que também chovia, e em épocas de “inverno bom”, os pequenos agricultores ajudavam muito o padre em suas obras, também. Ginásio Diocesano de Itaporanga e, por fim, Colégio Diocesano Dom João da Mata14, este, já no prédio novo e nome que permanece até hoje. A construção de uma escola que atendesse às necessidades citadas, já era, uma vontade de um dos antecessores de José, frente ao comando da paróquia, o cônego Luíz Gonzaga Gualberto, mas, quem de fato levou esta empreitada à frente foi José Sinfônio. Para a construção, não apenas contribuiu o tão conhecido à época “arroz do padre”, mas havia muitos outros tipos de doações. Podemos citar, por exemplo, as quantias em dinheiro que muita gente reservava toda semana para doação. Comerciantes, populares, muita gente ajudou para que tal projeto pudesse ficar pronto. E deu certo. Agora, os meninos que acabavam o ensino primário no colégio Simeão Leal, tinham onde continuar os estudos. Na escola desta época ainda não funcionava o que hoje conhecemos como Ensino Médio, mas o padre, junto aos professores da instituição à época, além de formarem os jovens (que, na verdade nem eram tão jovens assim, muitos já eram adultos, casados e com filhos, inclusive15) no que hoje se chama Ensino Fundamental II,também preparavam eles para que pudessem fazer o antigo teste de admissão, que deveria ser realizado para que conseguissem avançar nos estudos.

14 Em homenagem a um dos bispos que chegaram a assumir o comando da Diocese de Cajazeiras.
15 Muitos passavam o dia trabalhando e, a noite, ia pra escola estudar.

Mas, um detalhe: a escola sempre, desde o início, cobrou mensalidade. Ciente disto, fui procurar mais informações a respeito da entrada de jovens na escola e se todos poderiam ter acesso realmente aos estudos. A partir da análise das entrevistas e das fontes impressas, pode-se afirmar que, além da mensalidade ser baixa, cobrada apenas para que houvesse o funcionamento da escola (pagamento de funcionários, aquisição de materiais,etc), quem realmente não podia pagar, ganhava bolsas de estudo. Em seu cordel, já citado na introdução deste trabalho, o jornalista Sousa Neto escreve: “Uma escola pra edificar.Educação foi seu intuito. E quem não podia pagar. Recebia estudo gratuito. Quem dele necessitava. Com um siom ele respondia. Até o salário que recebia. Aos pobres todo doava” (NETO, 2011, p.9)

16 Além de ser baixa a mensalidade, outro critério usado pelo padre Zé (diretor) era: um filho pagava a mensalidade total, um segundo filho pagava a metade da mensalidade e se houvesse um terceiro a se matricular, era gratuito. O ensino gratuito era tambémoferecido a aqueles que fizessem parte da banda. O próprio padre Zé era professor da escola que fundou, chegando a lecionar Ensino Religioso e, na época da Ditadura Militar
17, as disciplinas de Educação Moral e Cívica e OSPB (Organização Social e Política do Brasil). Padre Zé também empreendeu a fundação da mais conhecida banda musical da cidade, e uma das maiores do Vale do Piancó, a Filarmônica Cônego Manoel Firmino, no ano de 1965. Ele pensou em colocar o nome de banda ICM (Iniciação à Cultura Musical) , entretanto, o sacerdote, ao perceber que isto era um nome de um imposto à época, decidiu fazer uma homenagem ao padre Manoel Firmino que havia, durante muito tempo, comandado a paróquia. Os primeiros instrumentos, que pertenciam a uma antiga banda que existira no município, foram doados pela Câmara Municipal
18. No ano de 2015 a filarmônica completou 50 anos. Padre Zé acreditava que a educação do povo não se passava apenas pela aprendizagem tradicional e, com a música, colocou muitos jovens num bom caminho. Pela banda fundada pelo religioso passaram inúmeras figuras. Tinha a intenção, também, de profissionalizar os jovens.
19 A mais conhecida foi a do itaporanguense Radegundis Feitosa Nunes, que no ano de 1991 torna-se doutor em música pela Catholic University of America em Washington – EUA (chegou a ser gerente da banda).
16 O texto original encontra-se sem os pontos e, cada parte entre os pontos que coloquei aqui, em uma linha. Editamos por questão de formatação do artigo.

17 Triste período da história de nosso país, iniciado com o golpe de 1964 e encerrado em 1985.
18 Era a Banda de Abrão Diniz (Ex-prefeito de Itaporanga).
19 Em relação a isto, ele também criou uma gráfica, que até hoje funciona no Colégio Diocesano.

É uma verdadeira exportadora de talentos. Raimundo diz em sua entrevista que há músicos, que passaram pela filarmônica, na banda Dragões da Independência, a banda presidencial; na Universidade Federal da Paraíba (UFPB); na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRB); na Universidade Federal do Paraná (UFPR); no Exército; na Marinha; na Aeronáutica e em muitos outros órgãos de destaque. No campo da saúde, o religioso contribuiu de forma decisiva para que fosse instalado, na cidade, o Hospital Distrital José Gomes da Silva, iniciado durante a segunda administração do prefeito Praxedes da Silva Pitanga. Por falta de interesse público e de recursos, a construção passou muito tempo parada. Padre Zé, junto a outros líderes locais, como, por exemplo, João Franco da Costa, e ao médico Balduíno de Carvalho militaram politicamente para que a obra continuasse. Padre Zé chegou a presidir o comando das obras durante muito tempo. Comandou, também, por algum período, a maternidade do hospital. No campo do turismo religioso, o padre empreendeu a construção de uma enorme estátua ao Cristo Rei, uma das maiores do mundo. Hoje é o maior ponto turístico da cidade de Itaporanga20. Muitos o chamam de “o construtor de monumentos”. Alguns acreditam que a construção deve-se ao pagamento de uma promessa que o sacerdote teria feito para que acabassem no município as brigas entre famílias. Rainério, por exemplo, diz em sua entrevista que acredita mais na ideia de que o padre empreendeu a construção do monumento para que deixasse uma espécie de símbolo de sua passagem por Itaporanga. Também deve-se ao padre, de forma direta ou indireta: criação da SIC-Vale, Sistema Intermunicipal de Comunicação do Vale do Piancó, (de que foi diretor), contribuindo, assim, com o setor de telecomunicação; chegada da energia elétrica ao município

21 (a partir de contatos do sacerdote com o então presidente da República, Juscelino Kubitschek), etc. Grande líder foi Pe. José Sinfrônio no município de Itaporanga e, quanto a isto, não há dúvidas. Os próprios prefeitos do Vale do Piancó reconheceram a sua importância para todo o Vale. Certa vez, juntos, presentearam o padre com um automóvel do modelo brasília, já que o meio de transporte que ele usava era só o lombo de animais22.
20 Junto com a Igreja Matriz, que ele, apesar de não ter empreendido a construção, aumentou em 16 metros, construiu um novo altar, uma nova secretaria, etc.
21 Antes o que se tinha eram um motor à óleo.
22 E um Jeep, depois, já na época daconstrução do Cristo e, por necessidade, uma camioneta (todos bens da paróquia e único bem que ele chegou a possuir foi esta Brasília. Era dele mesmo. Doada pela AMVAP).
Quando o sacerdote morreu, o dia de sua morte, 19 de agosto (o ano de morte foi 2006), tornou-se feriado municipal
23. Seu corpo foi enterrado aos pés do monumento erguido por empreendimento dele, e do povo. 

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS 
Nota-se, a partir do que foi discutido, que José Sinfrônio de Assis Filho foi, antes de tudo, um cidadão que pensava na coletividade. Um benfeitor do município de Itaporanga e, por conseguinte, dos itaporanguentes. Benfeitor mesmo no sentido de ajuda, aquele que estava sempre aberto ao diálogo e ao melhoramento dos aspectos sociais da população, e visava sempre o desenvolvimento local. Era um visionário. Para muitas pessoas a história de Itaporanga deve ser entendida como antes e depois do padre Zé. Acredito que os objetivos deste trabalho foram alcançados, visto que, mostrou-se de forma sucinta, qual foi a atuação sociopolítica do sacerdote estudado e a partir de onde ele agiu. Com isto tudo, também se verificou qual é a imagem que foi construída do padre: uma pessoa boa, sempre disposta a ajudar, que mudou para melhor a situação social do município, “o construtor”, “o benfeitor”, “o apaziguador”, “o eedificador”; aquele que era capaz de pedir esmolas para os mais necessitados, etc. Espera-se que este trabalho suscite futuras pesquisas a respeito deste líder local, visto que ainda tem muito o que ser discutido.
23 Mais tarde, torna-se ponto facultativo
.
5. REFERÊNCIAS
RÉMOND, Réne (org.). Por uma História Política. Rio de Janeiro: Editora UFRJ,1996.
MEIHY, José Carlos Sabe B; HOLANDA,Fabíola. História Oral – como fazer, como pensar. 2. ed. São Paulo: Contexto, 2015.
BRASILINO, Paulo Rainério. Se essa rua fosse minha. Vol 1, 2. ed. Itaporanga,PB: Gráfica Inovapel, 2016.
NETO, Sousa. A chegada de Padre Zé ao Céu. Itaporanga, PB: Gráfica Padre Zé, 2011.

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