quarta-feira, 20 de setembro de 2017

ALCOOLEMIA. QUANTO ÁLCOOL O CORPO HUMANO CONSEGUE SUPORTAR


Não existe um preciso limite letal para a presença de álcool no organismo humano. A tolerância é muito variável segundo os indivíduos. Em entrevista, o médico francês Philip Batel, especialista em adicções, fala sobre a desigualdade da embriaguez.

Por: Cécile Thibert – Le Figaro Santé

No dia 7 de setembro último, nas imediações de Angoulême, na França, um automobilista foi detido pela polícia rodoviária: ele estava com 6,93 gramas de álcool por litro de sangue. Como era possível que ainda fosse capaz de guiar seu carro?

No mesmo dia, em Chazelles, um homem de 52 anos foi encontrado inconsciente debruçado sobre o volante do seu automóvel parado no meio a rua. Exalando um forte cheiro de álcool, esse automobilista por pouco não batera em um outro carro não longe dali. Levado ao pronto socorro do hospital mais próximo, verificou-se que esse homem estava em coma etílico. As análises revelaram que ele guiava com uma taxa recorde de 6,93 gramas de álcool no sangue, ou seja quase 14 vezes mais alta do que a taxa limite autorizada (0,5 grama por litro de sangue). Para chegar a isso, esse homem tivera de beber o equivalente a um litro e meio de uísque!


Recorde absoluto? Nada disso, pois o recorde francês de alcoolemia nas estradas foi medido em 2005 pela polícia da região do Ain: um homem de 37 anos tinha uma taxa de álcool no sangue que chegava a 10 gramas por litro! Na Europa, o recorde pertence a um polonês de 30 anos. Ele ganhou a coroa de vencedor com uma taxa de alcoolemia de 13,74 gramas por litro de sangue.

Figaro Santé – Existe um limite que não pode ser superado, ou o corpo humano pode se adaptar a alcoolemias muito elevadas?

Philip Batel – “Não existe um limite letal de álcool, a tolerância é muito variável segundo os indivíduos. Essa desigualdade da embriaguez é devida a vários fatores. O sexo da pessoa, para começar. As mulheres são muito mais sensíveis que os homens aos efeitos tóxicos, principalmente porque elas são, em geral, menores e mais leves, e possuem mais tecidos gordurosos do que os homens. O álcool se difunde mais facilmente através desse tipo de tecidos.

Existe igualmente o fator genético. Certas pessoas são capazes de tolerar, de modo provisório, alcoolemias muito elevadas. O hábito também é um fator importante. Uma pessoa dependente do álcool habituada a beber todos os dias irá tolerar mais uma importante quantidade de álcool do que uma pessoa que bebe apenas ocasionalmente. O fato de a pessoa consumir também outros produto tóxicos além do álcool – penso sobretudo à cocaína e as anfetaminas – engendra também um aumento considerável da tolerância.

Mais a pessoa possui uma tolerância elevada, mais o seu cérebro será capaz de produzir modificações neuronais que lhe permitem resistir ao álcool.


FS – Mas uma boa tolerância significa que os efeitos deletérios do álcool no organismo serão menores?

Não, ao contrário. A tolerância é o reflexo de um sofrimento cerebral. Mais uma pessoa possui uma tolerância elevada, mais o seu cérebro sofre modificações neuronais que lhe permitem resistir ao álcool. Quando o cérebro esgota suas forças e não consegue mais resistir à intoxicação alcoólica aguda, todo o corpo entra no estado de coma. Isso corresponde a uma perda de consciência provocada pelo efeito do álcool no sistema nervoso. Isso se manifesta de diferentes formas, indo desde uma grande sonolência a um coma profundo no qual o reflexo de deglutição desaparece. Estimamos que com 1,5 grama de álcool no sangue, cerca de 30% da população entrará em coma etílico. O risco de coma etílico é particularmente importante quando uma quantidade de álcool situada entre 2 e 4 gramas por litro de sangue é consumida rapidamente.

FS – A embriaguez pode ser mortal?

Sim, indiretamente. A morte mais frequentemente acontece por causa de um sufocamento provocado por vômitos ou pela posição da língua no interior da boca. Tomar grandes quantidades de álcool em pouco tempo pode igualmente provocar complicações metabólicas graves, tais como a hipoglicemia ou uma hepatite aguda, embora isso aconteça mais raramente.

Na França, o álcool é responsável pela morte de 28% das pessoas que perecem em acidentes estradais. Isso faz dele a primeira causa de acidentes, mais que a velocidade excessiva e o uso do telefone celular ao volante.

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