sexta-feira, 18 de agosto de 2017

MEDICINA ALTERNATIVA. IOGA É TÃO BOA QUANTO FISIOTERAPIA PARA DOR LOMBAR


Ioga é tão eficiente quanto a fisioterapia na redução da dor lombar crônica, uma das queixas álgicas mais comuns e frequentes em todo o mundo, mostra uma nova pesquisa.

Por: Pauline Anderson – Le Figaro Santé

"Nosso estudo mostrou que, pelo menos no que diz respeito às dores lombares, os efeitos da prática da ioga não são inferiores aos da fisioterapia convencional", diz o médico Dr. Robert B. Saper, diretor de medicina integrativa do Boston Medical Center, Massachusetts, EUA. Dr. Saper chefiou uma psquisa feita com grande amostragem de pacientes, quase todos de baixa renda financeira. "Sua efetividade foi mais óbvia nos pacientes mais aderentes, mais dedicados", informa o médico. Dr. Saper apresentou seu estudo no Encontro Anual da American Academy of Pain Management (AAPM). A AAPM recentemente mudou seu nome para Academy of Integrative Pain Management.

Pesquisas prévias mostraram que a ioga melhora a dor e a função e reduz o uso de medicação. Por exemplo, uma meta-análise de 2013 já demonstrara que a prática da ioga exercia efeitos leves a médios nos casos de dores lombares. Os mesmos efeitos benéficos, segundo essa pesquisa, podiam ser obtidos também com a fisioterapia. 

"Nós já sabíamos, portanto, que tanto a ioga quanto a fisioterapia são eficazes, mas não conhecíamos sua eficácia comparativa", disse o Dr. Saper. "Para inserir uma prática
complementar de saúde dentro do tratamento padrão, eu diria que, no mínimo, é preciso que essa terapia seja tão efetiva quanto a convencional, e que talvez ofereça outros benefícios, como custo-efetividade".


A fisioterapia é considerada uma terapia convencional e é o tratamento não farmacológico mais comumente indicado por médicos para a dor lombar crônica. Cerca de 22% dos pacientes com dor lombar na atenção primária são encaminhados para fisioterapia.

Para esse novo estudo, os pesquisadores recrutaram 320 pacientes adultos de centros de saúde comunitária da área de Boston, que apresentavam dor lombar crônica sem uma causa anatômica óbvia, como estenose do canal medular. Os pacientes eram predominantemente não brancos e de baixa renda, com um nível educacional relativamente baixo.

Os pacientes apresentavam índices de dor lombar com pontuação "elevada" (média de 7 em 10 na escala de dor) e eram "bastante incapacitados" pela dor lombar, disse o Dr. Saper. Quase três quartos estavam utilizando medicamentos analgésicos, com cerca de 20% usando opioides.

"Não tivemos nenhum problema em recrutar pacientes porque as pessoas estão sofrendo com dor crônica e suas necessidades não estão sendo atendidas", disse o Dr. Saper.

Os pacientes foram aleatoriamente inscritos em um de três grupos: ioga, fisioterapia ou educação.

Para desenvolver um protocolo estruturado de ioga, o Dr. Saper e colaboradores organizaram um encontro de especialistas, que revisaram a literatura sobre o assunto. O produto final foi uma aula semanal de 75 minutos com uma razão muito baixa de estudantes por professor.

As lições começavam com uma introdução curta sobre a filosofia da ioga (não violência, moderação, auto-aceitação). Os participantes receberam então esteiras para realizar posições simples de ioga e também receberam um DVD para praticá-las em casa.


Medo de lesões
Ao ser perguntado por um participante como ele encorajava pacientes com dor a se deitarem no chão quando muitos têm medo de se lesionar, o Dr. Saper contou que alguns pacientes tiveram dificuldade, especialmente os obesos. "Mas as aulas eram lentas e suaves; a primeira aula poderia ser apenas para levar as pessoas ao chão, e depois levar os joelhos ao tórax, ou então em posição de mesa". O grupo da fisioterapia realizou 15 sessões individuais de 60 minutos que incluíam exercícios aeróbicos. Os fisioterapeutas e educadores físicos foram treinados para ajudar os pacientes a não sentirem medo. O grupo da educação recebeu um livro amplo sobre dor lombar.

As sessões de fisioterapia e ioga continuaram por 12 semanas, e a seguir os pacientes foram acompanhados por 52 semanas. Durante esse período pós-intervenção, os pacientes nos grupos de ioga e fisioterapia foram aleatoriamente inscritos para manutenção (continuar em aulas de ioga ou sessões de fisioterapia) ou apenas para prática domiciliar.
A aderência global não foi ótima. O número médio de sessões de ioga e fisioterapia cumpridas durante a fase inicial foi de sete.

A questão primária a ser avaliada foi se, durante doze meses de prática, os efeitos da ioga eram iguais, superiores ou inferiores aos da fisioterapia. O estudo mostrou que esses efeitos se revelaram "exatamente iguais para a ioga e a fisioterapia, ou seja, não ficou demonstrada a superioridade de um método sobre o outro. "No entanto, ao observar apenas aqueles pacientes que realmente se dedicaram às aulas de ioga, notamos que a sua capacidade de aprendizado e de absorção de conhecimentos a partir das aulas teóricas foi muito superior em termos educacionais", revelou o Dr. Saper.


Quanto à porcentagem de pacientes que tiveram uma redução pelo menos 30% na sua sensação de dor, o número foi de 48% de pacientes que se submeteram à ioga, e de 37% para os que se submeteram à fisioterapia. "O que significa que, para cada dois pacientes fazendo ioga, cerca de 50% tiveram resposta clínica bastante positiva", revela Saper. No início do estudo, cerca de 70% dos participantes de ambos os grupos, os da ioga e os da fisioterapia, estavam usando medicamentos. Na 12a semana da pesquisa, verificou-se que esse uso tinha se reduzido em cerca de 20% também em ambos os grupos. Além da baixa aderência, uma outra possível limitação do estudo é que as descobertas não podem ser generalizados. "Por exemplo, utilizamos para a pesquisa um programa padronizado e bastante bem estruturado de exercícios de ioga", disse o Dr. Saper, "mas não sabemos como os pacientes vão evoluir se forem praticar em alguma cademia de ioga situada perto de suas casas".

Custo-efetividade
Os pesquisadores agora vão analisar os custos envolvidos na ioga, disse o Dr. Saper: "Estamos coletando dados para avaliar a custo-efetividade da ioga para dor lombar clínica, da perspectiva do pagador, da sociedade e do paciente. Veremos o que essas análises mostram; potencialmente vão justificar, em combinação com dados de eficácia, a cobertura de programas de ioga estruturados pelos hospitais ou pelo sistema oficial de saúde".

Convidado a comentar o estudo, o Dr. Robert Bonakdar, do Scripps Center for Integrative Medicine, La Jolla, Califórnia, disse que o trabalho faz "uma pergunta importante": como algo "novo e iminente como a ioga" se compara à terapia padrão.

"Cada médico de família, cada médico na linha de frente com pacientes com dor lombar está em busca de tratamento não farmacológico, e uma das opções iniciais é a fisioterapia. Mas, infelizmente, ela não funciona para todos os pacientes".


Em alguns casos, disse o Dr. Bonakdar, a fisioterapia pode não ser acessível ou coberta pelo plano de saúde, por ser, para eles, proibitivamente cara. De forma alternativa, "existem aulas de ioga que custam 10 ou 15 dólares por semana", disse o Dr. Bonakdar, e a ioga "pode ser adaptada para se tornar uma prática domiciliar".

O novo estudo "traz acréscimos ao nosso conhecimento sugerindo que:
a) a ioga é boa como tratamento padrão para terapia não farmacológica
b) a ioga pode ser praticada por pessoas das mais diversas camadas sociais, inclusive pela população de baixa renda e que não domina perfeitamente bem o inglês. Só esses fatores já significam a remoção de barreiras, o que anima os médicos a recomendar a sua prática.
A beleza da ioga, disse o Dr. Bonakdar, é que "ela é muito completa", e inclui não apenas a consciência corporal, mas o cuidado com a mente e a respiração. A pessoa se sente bem ao praticar os exercícios, não percebendo que está na verdade realizando uma intervenção médica".

Também existem evidências de que a ioga tem impacto positivo nas funções cerebrais. De acordo com Catherine Bushnell, do National Center for Complementary and Integrative Health, National Institutes of Health, praticantes de ioga a longo prazo têm mais substância cinzenta do que pessoas fisicamente ativas, mas sem praticar ioga.

"A substância cinzenta diminui com a idade, mas praticantes de ioga apresentam maior estabilidade nesses processos; não se observa a redução de substância cinzenta relacionada à idade como acontece com outras pessoas também fisicamente saudáveis", disse Catherine Bushnell aos delegados do encontro.

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