segunda-feira, 7 de agosto de 2017

ANTIBIÓTICOS. SERÁ MESMO PRECISO IR ATÉ O FIM DO TRATAMENTO?


Em nome da luta contra a antibioresistência, cientistas britânicos contestam as recomendações internacionais que estimulam os pacientes a concluir seus tratamentos com antibióticos. 

Por: Aurélie Franc - Le Figaro Santé

Na França e na maior parte dos países do mundo, a recomendação médica escrita nas bulas é clara: "Respeite a dosagem recomendada e não pare o tratamento prematuramente. Mesmo se seu estado geral melhore, o antibiótico deve ser tomado até o fim". Tais conselhos, aprovados pelos vários ministérios da saúde, se fundamentam em recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS) sobre o tema.

Dois argumentos sustentam esses conselhos: primeiro, quando se interrompe o tratamento, o paciente corre o risco de sofrer rapidamente uma recaída no caso de que a bactéria responsável não tiver sido completamente eliminada. Segundo, parar o tratamento poderia favorecer uma seleção de bactérias resistentes aos tratamentos antibióticos.

Qual a duração ideal dos tratamentos?
Em artigo recém publicado no British Medical Journal, dez especialistas britânicos contestam esses postulados. Segundo o professor Martin Llewelyn, renomado
infectologista, e nove outros especialistas: "Poderíamos aconselhar os pacientes a parar o tratamento quando eles se sentirem melhor, em contradição com a recomendação da OMS".

Para chegar a essa conclusão, os cientistas se apoiam numa constatação: a duração ideal dos tratamentos com antibióticos não é conhecida. Por exemplo, os beta-lactâmicos, uma classe de antibióticos entre os mais utilizados no mundo, são recomendadas durante 10 a 14 dias, "mas nenhum estudo sobre tempos mais curtos foram realizados", observam os cientistas. Isso de fato aumenta a duração dos tratamentos.

Ora, segundo eles, em função do indivíduo (idade, sexo, antecedentes médicos, etc.), as duração dos tratamentos poderiam ser reduzidas. E, com isso, evitaríamos o consumo supérfluo de antibióticos. "Reduzir esse consumo inútil é altamente necessário se quisermos atenuar a resistência antibiotica", asseguram os pesquisadores.

Uma mensagem perigosa
Essa tomada de posição dos cientistas britânicos provocou uma polêmica no seio da comunidade científica, que neste momento debate a questão. Todos os especialistas contatados pela redação de Figaro Santé consideram que a questão suscita muitas perguntas e questionamentos, notadamente as que concernem a duração ideal do tratamento com antibióticos. Mas alguns médicos alertam sobre os perigos de um posicionamento como esse. "Já temos tanta dificuldade em fazer com que os pacientes sigam a integralidade do tratamento, se passarmos a interrompê-los assim que uma melhora se apresente, não teremos mais certeza de nada e todos os tipos de problemas poderão surgir", diz Patrice Nordmann, professor de microbiologia na Universidade de Friburgo (Suíça) e diretor de unidade do Inserm.

Para começar, os especialistas contatados consideram não ser possível deixar a critério do paciente a decisão de interromper o tratamento, pois a sensação de "se sentir melhor" é arbitrária. O simples fato de começar um tratamento pode levar o paciente a acreditar que já está melhor, quando na verdade o seu estado permanece comprometido pela doença.

Mais estudos são necessários
Por outro lado, todos lamentam igualmente a falta de provas científicas das assertivas dessa equipe de médicos ingleses, pois eles não apresentam nenhum estudo que corrobore suas opiniões pessoais. Mesmo que elas sejam imprecisas - por causa da heterogeneidade da população que toma antibióticos -, "as doses, as durações e os tempos de exposição aos antibióticos foram estabelecidos através de pesquisas clínicas", explica Thierry Naas, médico hospitalar e diretor do laboratório associado ao Centro de Referência Nacional de resistência aos Antibióticos.

À espera das pesquisas clínicas que confirmarão ou não as opiniões dos médicos britânicos, "será melhor permanecer no respeito às recomendações das instituições especializadas", afirma o Dr. Naas. 

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