quarta-feira, 26 de julho de 2017

ZOO INTERIOR. MILHÕES DE BACTÉRIAS POVOAM NOSSO SISTEMA DIGESTIVO


Nós não as vemos, porém milhões de bactérias moram nos diferentes órgãos do nosso sistema digestivo. Quando comemos, a microbiota (*) intestinal envia sinais de saciedade para nosso cérebro. Elas muitas vezes determinam a saúde e a doença.

Por Soline Roy – Le Figaro Santé

Psiu… Ouça. Suas bactérias estão conversando com você. Ao comer, a enorme população microscópica que mora em seus intestinos se serve em primeiro lugar. E informa o seu cérebro assim que estiver satisfeita.

«Nossas bactérias intestinais, uma vez alimentadas, produzem uma proteína que  agirá no cérebro para lhe dizer que deve ordenar à pessoa parar a ingestão de alimentos», resume Sergueï Fetissov. Professor de fisiologia na Universidade de Rouen e pesquisador no
Inserm na unidade de nutrição, inflamação e disfunção do eixo intestino-cérebro, ele lidera a equipe que acaba de publicar seus resultados na revista médica  Cell Metabolism.


Primeiro em tubos de ensaio e no intestino de ratos e camundongos, a equipe de pesquisadores analisou o comportamento de várias . Esta bactéria oferece o duplo benefício de  «morar no intestino de todo mundo, e ser um modelo fácil de manipular no laboratório», diz Serguei Fetissov.

Sensor bacteriano
Primeira descoberta: os pesquisadores observaram que «as bactérias controlam seu próprio número e param de se dividir após ter produzido uma determinada quantidade de novas bactérias». Se os autores ignoram como elas «decidem» interromper seu crescimento, eles observam, contudo, que este processo dura exatamente… 20 minutos. «Em tubo de ensaio ou no intestino do rato, este prazo permanece o mesmo, encanta-se Serguei Fetissov. Testamos também outras bactérias in vitro e encontramos a mesma cinética.» Mas 20 minutos é o tempo necessário durante uma refeição normal para que surja uma sensação de saciedade. Será que nossas bactérias nos dizem quando não estão mais com fome?


No ano passado, a mesma equipe de Rouen havia identificado uma proteína (Clpb), produzida pela bactéria E. coli e semelhante a um hormônio envolvido no sentimento de saciedade. Os pesquisadores queriam saber como a Clpb se comportava. E surgiu a segunda descoberta : a proteína Clpb não age da mesma forma, conforme ela for originária de bactérias famintas ou saciadas! «Quando injetamos proteínas extraídas de bactérias em fase de crescimento em ratos, elas estimularam a produção de um hormônio que aumenta a liberação de insulina (GLP1). E ao injetarmos as mesmas proteínas, mas a partir de bactérias que pararam de crescer, elas estimularam outro hormônio que regula a saciedade (PYY)», explica Serguei Fetissov. Os ratos submetidos a estas últimas injeções comeram, em seguida, duas vezes menos que aqueles que receberam um placebo ou proteínas oriundas de bactérias não saciadas.

Uma interação extraordinária
«Trata-se de um estudo muito sofisticado, que confirma a interação extraordinária entre a microbiota e o cérebro”, entusiasma-se o Prof. Jean-Michel Lecerf, chefe do departamento de nutrição no Instituto Pasteur de Lille. “No entanto, será preciso demonstrar que o mesmo processo está em ação nos seres humanos e qual é o seu papel nos transtornos alimentares.»

Além disso, será necessário medir o peso deste «sensor bacteriano» em relação a todos os outros processos que governam nossos apetites . Porque se nossa microbiota é frequentemente considerada como nosso «segundo cérebro», poderíamos também qualificar nosso cérebro de «primeira barriga». Dilatação e esvaziamento do estômago, aumento da glicemia, várias reações hormonais …, nosso organismo envia diversos sinais, muitas vezes redundantes, para nos dizer se é para comer ou não. «Tudo está organizado em nosso organismo para não emagrecermos, é por isso que os medicamentos e dietas funcionam mal», diz Jean-Michel Lecerf. Além das várias madeleines de Proust que despertam em nós prazeres e desgostos. «A regulação do comportamento alimentar é uma usina de gás incrível, diz o Prof. Lecerf, especialmente em seres humanos, com toda uma parte psicológica e ambiental.» No entanto, concorda o médico, «essas linhas de pesquisa no eixo intestino-cérebro são promissoras ».


A equipe de Rouen vai focar nos estudos destes processos em seres humanos, dos quais a microbiota contém os mesmos aliados microbianos preciosos. E após ter «encontrado a proteína bacteriana que faz com que o rato pare de comer», Serguei Fetissov gostaria de descobrir a que faz o ser humano emagrecer. «Vamos tentar entender melhor, através deste mecanismo, a hiperfagia ligada à obesidade», diz o pesquisador, que imagina, dentre outros, a administração de probióticos ou prebióticos, para ensinar à microbiota de pacientes obesos a dizer «stop».

Enquanto isso, conclui Serguei Fetissov, há uma lição que podemos lembrar: no final de uma refeição, tenhamos um pouco de paciência antes de nos jogarmos na segunda sobremesa. «Nossas bactérias precisam de um pouco de tempo para fazer seu trabalho.»
(*) Em ecologia, chama-se microbiota o conjunto dos microorganismos que habitam um ecossistema, principalmente bactérias, mas também alguns protozoários, que geralmente têm funções importantes na decomposição da matéria orgânica e, portanto, na reciclagem dos  nutrientes.

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