terça-feira, 18 de julho de 2017

VIOLÊNCIA DAS MULHERES. UM PROBLEMA DE IDENTIDADE FEMININA


Liliane Daligand é psiquiatra, professora de medicina legal na França. Ela acaba de publicar La violence féminine (A violência feminina) Editora Albin Michel. Nesta entrevista, Daligand explica como a busca exacerbada de poder e de dominação dos outros - uma tendência hoje profundamente enraizada no quotidiano das pessoas - pode levar à violência.

Por Pascale Senk – Le Figaro

Le Figaro –Você explora as causas da  violência das mulheres há vários anos. O que há de específico nesse fenômeno?
Liliane Daligand – Nas mulheres, a violência está realmente relacionada a uma busca de poder e de dominação dos outros. Esta equação psicológica - também presente em muitos homens – torna-se ainda mais evidente nas mulheres que se deixam tomar pelo desejo de possuir uma potência fálica que, acreditam elas, lhes daria o poder de controlar e dominar os outros. Na adolescência, em particular, essas mulheres demonstram com frequência que gostariam de absorver a força dos “caras”. Muitas adotam um estilo de vida mais masculinizado e pensam que se tivessem manifestado mais cedo esse poder seminal que procuram, não teriam experimentado os traumas pelos quais passaram.

Algumas mulheres violentas falam alto, gesticulam, querendo ser como homens, gênero que, no entanto, elas desprezam. Exigem igualdade aos homens, e nunca dizem “fui
espancada”, mas sim «eu lutei»…

A senhora diz que, com frequência, essas mulheres sofreram violências e ficaram traumatizadas. Estaria aí a raiz principal dos seus comportamentos violentos?
Sim. A grande maioria dessas mulheres foi vítima de violência e de rejeição. Elas experimentaram um caminho que é muito parecido com o das suas vítimas. Muitas vezes, elas não tiveram um pai verdadeiro. Tiveram um pai ausente, ou desqualificado para a tarefa. A figura do pai, para elas, passa a ser desvalorizada, torna-se insignificante. Essas mulheres têm muita dificuldade para se impor como mulheres, e não se sentem seguras na sua identidade feminina.

Pais ausentes, mães indiferentes
Mas as mães delas não as ajudaram nesse sentido?
Muitas vezes, suas mães manifestaram indiferença ao problema que as filhas estavam vivendo, ou então se posicionaram muito próximas a elas, como se fossem um espelho, não aceitando nenhuma diferença, estabelecendo uma relação do tipo «somos amigas, nós duas somos a mesma pessoa”. Nessas circunstâncias, a filha vive uma “confusão de gerações”, e se sente reduzida, sem encontrar um lugar e uma posição clara em sua própria geração. Ela não encontra seu lugar no quadro simbólico do parentesco.

Mas, se elas são tão rígidas psiquicamente, a senhora observa que elas também são muito influenciáveis. Como isso é possível?
Sim, são muito influenciáveis. Sua falta de senso crítico está relacionado à sua imaturidade. Elas são pouco desenvolvidas psiquicamente e muito maleáveis. Têm dificuldade para se separar de uma imagem de mãe onipotente. Para se separar, elas precisam se aliar a um outro poder, no caso o de um homem, figura na qual elas se projetam e se identificam.

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