terça-feira, 11 de julho de 2017

BOA FORMA FÍSICA. SERÁ UMA QUESTÃO DE GENÉTICA?


Qual o papel e a importância do fator genético na boa forma física? A questão interessa os pesquisadores há muitas décadas. Eles descobriram genes ligados à nossa capacidade de resistir aos grandes esforços físicos e outros que parecem possibilitar a alguns indivíduos dormir poucas horas e, mesmo assim, acordar perfeitamente descansados.

Por: Christophe Doré - Le Figaro Santé

Trata-se de uma realidade difícil de admitir: nós não somos todos iguais quando se trata de enfrentar a fadiga. A razão reside em parte em nossos genes, tanto quando falamos de nossa resistência a esforços musculares prolongados, quanto pensamos na necessidade individual de horas de sono e descanso para que possamos acordar descansados e prontos a enfrentar mais uma jornada. Sabemos que a hereditariedade produz grandes dorminhocos que precisam passar a metade de suas vidas na cama, mas ela produz também pessoas que estão sempre despertas e ativas, necessitando de poucas horas de sono. Sabemos que existe predisposição genética em certos atletas capazes de desempenhar grandes esforços musculares. Foi isso que suspeitou, e em seguida demonstrou, a professora Kathryn North, pediatra, neurologista e geneticista na Universidade de Melbourne (Austrália).

Desde 2003. ela dirige uma pesquisa a respeito do gene da actinina-3, uma proteína que desempenha papel-chave no metabolismo das fibras musculares implicadas quando executamos esforços intensos. Essa geneticista diz que quando esse gene apresenta uma certa mutação, ou seja uma variação da sua escritura, dizemos que a proteina é deficiente. Ora, seguindo a pista da sua presença em cerca de 400 voluntários, esportistas ou não, ela constatou que essa mutação é menos frequente nos "sprinters" (atletas de velocidade, velocistas, que correm em curtas distâncias) que nos praticantes de esportes de resistência, particularmente os adeptos da maratona. A partir dessa descoberta, a professora North prosseguiu em suas investigações e percebeu que, ao inativar esse gene em ratos, isso possibilitava a eles percorrer uma distância aumentada de 33% em relação à normal.


Performance incrementada graças ao ferro 
A mutação do gene ocorreria portanto para melhorar as performances físicas, nos tornando mais resistentes ao esforço durante os exercícios prolongados. A genética é uma ciência complexa na qual muitos enigmas e questões devem ainda ser decifrados. Mas as pesquisas continuam e os geneticistas aventaram outras hipóteses que criaram surpresa e confusão entre os esportistas. Várias vezes, atletas de alto nível foram suspeitos de dopagem... Erradamente. Por exemplo, em 2006, durante os jogos olímpicos de inverno de Torino, na Itália. Um controle de saúde do qual era objeto o corredor fundista francês Jean-Marc Gaillard revelou nele uma taxa de hematócritos muito elevada, ou seja, um volume de glóbulos vermelhos bem maior do que a média. O hormônio EPO, substância dopante, produz exatamente esse efeito. No entanto, um teste eliminou essa possibilidade: nenhum traço de EPO no organismo de Gaillard. Como explicar, assim sendo, que ele fabrique mais hemoglobina que o normal? A resposta se encontra nas mutações de um gene implicado na absorção do ferro.

Esse metal é um elemento indispensável para a síntese da hemoglobina em nossos glóbulos vermelhos. Nós o encontramos igualmente na mioglobina, que permite a oxigenação dos músculos. O que significa que, se tivermos carência de ferro, sentimos mais cansaço que o normal ao desempenhar um esforço físico; no caso inverso, ganhamos resistência. Uma demonstração disso foi feita com vários atletas que, da mesma forma que Gaillard, superam os padrões normais do número de hematócritos. O professor Gérard Dine, hematólogo no CHU de Troyes, teve então a ideia de buscar em esportistas anomalias ligadas ao metabolismo do ferro. Em conjunto com a equipe do professor Olivier Hermine, hematólogo no Hospital Necker, em Paris, ele as encontrou a partir de uma mutação do gene HFE, cuja proteína comanda a absorção do ferro e sua regulação através de um hormônio de estocagem. Quando essa mutação está presente de modo duplo, nos dois cromossomos de um mesmo par, surge então o risco de uma doença conhecida pelo nome de hemocromatose, um excesso de ferro no sangue.


Atletas dotados de genes mutantes
Mas, curiosamente, tudo isso acontece de forma diferente quando se trata de esportistas. Após desenvolver a pesquisa durante cinco anos com atletas de alto nível praticantes de diferentes esportes (esqui de fundo, judô, remo), os pesquisadores conseguiram demonstrar que a mutação é duas vezes mais frequente neles do que no resto da população. Além disso, 80% dos atletas que conquistaram os pódios são portadores de uma mutação do gene HFE. Os mecanismos ainda não estão perfeitamente elucidados. Mas parece que quando se leva o corpo a acumular ferro, essa mutação possibilita aos esportistas evitar as carências e, portanto, a fadiga.

Da mesma forma, certas mutações explicam nossas desigualdades quanto à questão da falta de sono. Num estudo publicado em 2009 na revista norte-americana Science, pesquisadores da Califórnia já apontavam o papel de um gene, o DCE2, que já sabíamos estar implicado na regulagem do nossos relógio biológico interno. Em duas mulheres portadoras de uma dessas mutações, cinco a seis horas de sono bastavam para que elas se sentissem plenamente em forma, contra 8 a 9 horas em média para a maioria das pessoas. Tais resultados foram confirmados há dois anos na Universidade da Pensilvânia, a partir de um estudo levado a cabo com duas centenas de pares de gêmeos. Um outro estudo, feito na Alemanha, detectou uma outra mutação em um outro gene responsável, agora, por um período de sono mais prolongado. Assim sendo, sem dúvida, se os tônus de cada um de nós são diferentes ao longo de uma mesma jornada e dos mesmos esforços, podemos concluir que nossa higiene de vida não é o único fator que importa, e que o patrimônio genético deve ser levado em conta.

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