domingo, 9 de julho de 2017

Adeus ao criador do Limousine 58


Poucas pessoas foram tão ousadas na música paraibana quanto Júlio Charles Alvarenga Cirilo, que morreu sábado passado, pela manhã, em acidente automobilístico, próximo a São Mamede, na Paraíba.

Júlio Charles conseguiu organizar, lançar, produzir e gravar um dos grupos de pop-rock de maior sucesso no Nordeste, em 1985: o Limousine 58. Júlio, Ricardo Fabião, Robério Jacinto e as vocalistas batizadas como Ratas Mecânicas, levaram à Praça do Povo do Espaço Cultural cerca de 15 mil pessoas. Eu vi.
Júlio Charles nasceu em Pombal, em 9 de julho de 1963, mas seus pais foram morar em Itaporanga quando ele era guri. Chegou aos 44 anos, sempre dizendo que era “itaporanguense de paixão”.

Compositor, cantor e produtor musical, teve o grande mérito de na metade da década de 80 organizar o Mixto Quente, que passaria a se chamar Limousine 58, lançando o LP "Marcou geral", que chegou a ser bem executado nas rádios de várias capitais brasileiras. O maior sucesso foi a canção “Mistério”, com uma interpretação insuperável de Ricardo Fabião.

Mas, o disco, com influências maiores da Blitz, do Barão Vermelho e do melhor pop-rock dos anos 80, tinha outras faixas de alta qualidade no género: “Cara pálida”, “Amortecedor”, “Colorido recente”, “Ivete Chiclete”, “Viva-ce” e “Marcou geral”. Eram dez faixas. Sempre gostei de todas. No disco-solo que lançou neste ano, “No teu olhar”, Júlio Charles regravou “Colorido recente” e “Cara pálida”. Entre as inéditas, “Animais irracionais”, com a participação de Paulo Vinícius.

A última conversa que tive com Júlio foi na redação do “Correio da Paraíba”, quando me revelou o sonho de reagrupar o Limousine 58.

Quando o grupo acabou, com apenas um disco gravado, não foi em clima dos melhores. Acho até que os então três jovens Júlio, Ricardo e Robério não estavam preparados psicologicamente para o grande sucesso que tiveram. Mas, os três voltaram a conviver bem nos últimos anos, tanto que o CD-solo de Júlio foi gravado no estúdio O Beco, que é de propriedade de Robério Jacinto.

“Grande família”
Juntamente com o publicitário e jornalista Armando Formiga, também me senti integrante da “grande, família Limousine 58” como assim foi definida pela “backing vocal” Wanini Emery. Convivemos muito em mesas de bares em noites maravilhosas desta cidade que aprendemos a amar.


O Limousine 58 deixou alguns herdeiros. Ontem, o compositor Gustavo Magno me contou que quando tinha 16 anos cursava eletrônica na antiga ETFPB (depois, Cefet) e estava aprendendo violão. “Em meu repertório, tinha músicas do Limousine 58. Eu e meus amigos da época ouvíamos o disco do Limousine várias vezes. Era o melhor da música paraibana e o que desejávamos seguir”.

O teatrólogo Makários Maia disse que foi da “geração Limousine”: “Acompanhei os meninos nos primeiros shows e cantei muito com eles num boteco numa esquina do Cabo Branco”.
Fã do grupo, Adalberto Peixoto preparou material especial na Internet. Vi e recomendo. O endereço é www.ofaneseusidolos.gigafoto.com.br.

Intérprete de “Mistério”, Ricardo Fabião diz o que sente
“Poucos amam a música como Júlio amava. Poucos são os que como ele, conseguem dedicar tanto tempo e paixão a ela. Devo muito a ele - apesar dos meus silêncios, de tantos desvios em nossa estrada. Júlio tinha qualidades singulares. Nasceu voltado para o mundo do espetáculo. Era um grande produtor. Do amigo, falo adiante. Agora, quero aproximá-lo de sua grande paixão: A música. Ele não comia outra coisa, ele não bebia outra coisa, ele não respirava outra coisa. Era comum vê-lo cegar diante de sua arte, desconhecendo fronteiras, invadindo jornais e rádios. Mal raiava o dia, e lá se punha em marcha, cruzando o campo minado da vida artística; alçando voos por céus cinzentos, decolando em dias chuvosos, aterrissando em terrenos perigosos; não consultava os instrumentos indicadores de falhas e mazelas humanas. Às vezes era ingénuo. Não atentava para certos olhares, e, sem querer, revelava o ‘X’ do mapa.

De suas técnicas acerca de como ser e acontecer músico não me esquecerei jamais. Por esta razão devo parte do que conquistei como artista a ele. No Limousine 58, Júlio era a coragem, era quem dava os passos, quem içava as velas, quem checava os nossos motores, estava sempre à frente, conferindo o tempo, as cores, as coisas, sinalizando o devir.

Como amigo, recordo um sorriso, um bom papo em noites incansáveis de violão batido; de uma composição aqui e outra para logo mais. Ele, Robério, eu - jovens apostadores - tínhamos força para vencer as esquinas de várias gerações. Aquele abraço que os amigos não sabem dar, saía através de uma canção, de um vocal que batia no ponto certo da harmonia, implodia naquele trecho em que música suprime palavras. Viajamos juntos, buscando fama, gastando nossa energia de rapazes pelo Brasil pós-ditadura. Brindamos meses de sucesso, amargamos semanas de portas fechadas.

Nada quebrava o encanto das noites de cerveja nos copos, o brilho dos olhos, os sonhos plantados. Tudo estava semeado, que viesse a colheita. Não deu muito... E deu: colhemos o suficiente para nossa vida pessoense. Você, Júlio, queria mais, sempre quis mais. A limousine quebrou-se, enferrujou, virou carro-fantasma. Eu desci na curva seguinte... 

Talvez Robério tenha perdido um pouco do sonho também. Guardei as asas depois da primeira queda. Custou, mas passei a amar e conferir outras grandezas além da música. Você permaneceu limousine. Largou um bom pedaço de sua vida, de sua terra firme, para aventurar-se obstinadamente música adiante”.

Carlos Aranha

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