quinta-feira, 15 de junho de 2017

Guerra entre forrozeiros e sertanejos tira foco da questão aberta por Elba

Com argumentos plenamente justificados e justificáveis, a cantora paraibana defendeu o território dos cantores e grupos de forró no palco principal da festa de São João de Campina Grande, autointitulada


No início deste mês de junho de 2017, Elba Ramalho acendeu fogueira cujas labaredas ainda crescem e estão inflando egos de artistas ligados ao forró e ao universo sertanejo. Com argumentos plenamente justificados e justificáveis, a cantora paraibana defendeu o território dos cantores e grupos de forró no palco principal da festa de São João de Campina Grande, autointitulada "O maior São João do mundo".

Sem atacar os colegas do universo sertanejo, Elba questionou a legitimidade da contratação de artistas sertanejos para apresentações no principal palco da festa com o argumento de que artistas ligados ao forró nunca se apresentaram na Festa do Peão de Barretos, evento tradicional que sempre foi reduto de duplas e cantores sertanejos.

A questão é que, a partir da discussão aberta por Elba de forma pacífica e legítima, artistas de um gênero e de outro estão se atacando. A cantora e compositora Marília Mendonça saiu na frente e mandou recado para Elba: "Vai ter sertanejo no São João, sim, viu? Porque quem quer é o público", alfinetou a artista goiana, cheia de si, em apresentação no Recife (PE).

O contra-ataque foi rápido. De forma deselegante, o cantor cearense Alcymar Monteiro criticou Marília com argumentos e falas indefensáveis como a de que a artista "canta para cachaceiros". Com ataques do gênero, Alcymar revela preconceito contra a música sertaneja, ignora o alcance nacional do gênero e perde a razão que está do lado dos artistas de forró.

A questão é que os artistas que se sentem lesados devem cobrar das prefeituras de cidades ligadas ao forró, como Campina Grande (PB), a preservação das tradições da programação principal das festas de forró. São as prefeituras que contratam os artistas e
arcam com os custos das festas de São João. Elba teve foco e maturidade ao abrir a discussão. Infelizmente, esse foco está se perdendo com indiretas e ataques desnecessários de artistas como Alcymar Monteiro e Marília Mendonça.

Em um Brasil que pouco faz pela cultura do país, é fundamental que haja união entre os artistas de todos os gêneros. Até porque todos os gêneros (sertanejo, forró, MPB, pop etc) acabam se misturando. A cantora e compositora Ana Carolina, por exemplo, já fez parceria e já gravou com Luan Santana, para citar somente um exemplo de união musical entre um ídolo sertanejo e uma cantora identificada com a MPB pop.

Alertar contra o crescente domínio dos sertanejos nos nichos forrozeiros é legítimo. Desqualificar de forma grosseira artistas deste gênero amado por grande parte do povo brasileiro é atitude que em nada contribui para a resolução da questão. O discurso enérgico, mas pacífico, de Elba Ramalho deve ser tomado como exemplo nesse guerra que já acendeu a fogueira de vaidades, tirando o foco da questão primordial.

Aos forrozeiros, o que é dos forrozeiros. Mas que estes respeitem os sertanejos. E que os sertanejos também reflitam sobre a questão sem dispararem ataques e sem se sentirem superiores somente porque, no momento, a máquina da indústria da música opera, sobretudo, a serviço do gênero. Basta somente que os respectivos nichos e territórios sejam respeitados por uns e por outros...

(Crédito da imagem: Elba Ramalho em foto de divulgação de Daniel Ebendinger. Marília Mendonça em foto da capa do disco Realidade) 

Com G1

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