segunda-feira, 12 de junho de 2017

ELVIRA CRISANTO


A Centenária Matriarca

Em meio à revolução de 1930, “o telegrama da morte do Presidente João Pessoa ocasionou enorme comoção, formaram-se grupos de vingança, tiros e bombas de dinamite repetiam-se a curtos intervalos, vários incêndios foram ateados e os perrepistas viram-se ameaçados”... Pergunta-se: Em que esse relato do historiador José Otávio, aparentemente triste e aterrorizante, relaciona-se com a história de Itaporanga? Explico...

Crizanto Pereira da Silva (1866-1948) nasceu na antiga Vila de Misericórdia, hoje Itaporanga. Foi fazendeiro, criador de gado e dono de engenho. Na política, era aliado da família Pereira, de Princesa Isabel, tendo exercido o cargo de delegado da Vila de Misericórdia e, pelos serviços prestados à comunidade, foi agraciado pelo governo da época com o título de “Major”. Perrepista por convicção, preocupado com as notícias que chegavam a todo instante da capital do Estado e aconselhado por aliados, resolveu refugiar-se na cidade de Cajazeiras dos Rolim. 

Na casa de um compadre, conheceu a jovem Elvira. Viúvo e pai de 13 filhos, o Major encantou-se com a beleza daquela menina e logo quis tê-la como esposa. A jovem, pelo que conta hoje, viu naquele homem maduro e respeitado por todos, um “porto seguro” com quem poderia constituir família.    

Elvira Gonçalves, nasceu em 12 de junho de 1910, na cidade de Aurora, Ceará e, incentivada pelos pais agricultores José Gonçalves Ferreira e Maria Gonçalves de Albuquerque, quis estudar na casa do cunhado Antônio Holanda, na cidade de Cajazeiras. Acontece que o cunhado da moça era compadre do Major e cuidou de interceder para que ocorresse o matrimônio entre ambos. Em 24 de janeiro de 1931, com 20 anos de idade, a jovem Elvira, casa-se com o Major Crizanto, tornando-se dona Elvira Gonçalves Crizanto. 
Passada a agitação da Revolução de 30, radicaram-se em Misericórdia, na Fazenda Cajazeiras, tiveram 10 filhos e, dona Elvira, ainda jovem assumiu não só o posto de mãe de seus próprios filhos, mas, de mãe dos filhos do marido havidos do primeiro matrimônio, quase todos com idade semelhante à sua. Líder por vocação e doce por natureza, dona Elvira foi e ainda hoje é respeitada por todos, sendo carinhosamente tratada pelos descendentes dos enteados por “madrinha Elvira”. 

Mas, a vida também lhe pregou peças e, em 1948, com a morte do Major Crizanto, precisou assumir sozinha a administração da Fazenda Cajazeiras, conduzindo com pulso forte a produção de mel, rapadura e derivados de cana de açúcar, além da criação de gado. Telma Crizanto, uma das filhas, relata que, na época da moagem, trabalhavam, só no engenho, de 15 a 20 homens. É de Zé Crizanto, um dos filhos mais velhos, a lembrança de que era preciso um boi inteiro para alimentar a tropa de trabalhadores da fazenda. 

Mulher de fé católica integrou a “Ordem Terceira Franciscana” em Itaporanga, ajudando a catequizar jovens e coordenando programas de ação social desenvolvidos pela Igreja. 

Sempre incentivou o estudo dos filhos, formou todos e é, ainda hoje, uma amante da literatura e da poesia. Morando em João Pessoa, passou a destacar-se na Paróquia Nossa Senhora de Fátima, no Bairro de Miramar, por participar ativamente até aos 100 anos de idade, das atividades da igreja, servindo de exemplo e sendo repetidamente citada nos sermões. 

Atualmente (em 2017), com 107 anos de vida, Dona Elvira, ainda lúcida, vive na companhia da filha e fiel escudeira Elizabeth, a “Zô”, com que divide, além das tarefas domésticas, as leituras bíblicas. 

Saudável e com mente fértil, bem-humorada, foi co-autora na elaboração desse texto. Dona Elvira é a pessoa idosa que tem mais tempo de vida de tos os itaporanguenses

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