quarta-feira, 14 de junho de 2017

CHIQUINHA SEVERO


Francisca nasceu no sítio Cantinho, cercanias da Vila de Misericórdia, numa segunda-feira, dia 14 de junho de 1914, ao amanhecer. Se viva estivesse (morreu em 2015), completaria 102 anos em junho. Nunca caducou, morreu em plena lucidez. Filha do casal: Antônio Inácio e Maria de Araújo Lima, que era filha de Severino Teixeira. Chiquinha a menos de um mês da sua morte, me concedeu uma entrevista, onde inclusive, contou detalhes de sua vida. A segunda filha de uma prole de nove filhos.

Chiquinha foi “dada” por seu pai, ao seu avô, Severino Teixeira. Naquele tempo era praxe, os pais abdicarem da criação de seus filhos para que eles servissem de companhia a uma pessoa idosa. Neste caso, contra a vontade sua e da sua mãe, foi obrigada a morar com seu avô que era bem entrado na idade. E ela tinha apenas 12 anos de idade. 

Severino era agente dos Correios e Telegraphos, e Chiquinha, para ajudá-lo trabalhava como a jornaleira da vila, era ela que entregava o jornal na comunidade. Sua tia Lica, mais conhecida por Lia da Agência, auxiliava nos serviços burocráticos da referida agência; fato esse que gerou sua alcunha.

Aos 12 anos, antes de ir morar com o avô, mal entrara na adolescência, já arrumara uma paquera com Zé Nunes, o filho de Tenente Augusto, com quem, nos forrós do Cantinho, dançava “pras as lascas voar”. Era de deixar os presentes, boquiabertos.
 Seu avô Severino, arranjou um casamento com um rapaz velho, já maduro, entrado na idade; isto sem aquiescência da menina, mas seu avô queria e não se usava, nesse tempo, contrariar os mais velhos. Antônio, seu pai, fez uma grande festa para o casamento, no entanto a noiva chorou copiosamente. Não foi feliz todo o tempo em que durou esse casamento. Foram suas testemunhas neste enlace, Dona Salomé Pedrosa e Hernestina. A diferença de idade era grande, enquanto Chiquinha só tinha 16 anos, João Severo tinha mais que o dobro de sua idade, já passava de 36 anos. 

João era um grande artesão, um artífice do couro, embora nunca tivesse sido sapateiro. Fazia selas para animais de montaria, bolas de futebol, que eram costuradas a mão e outros artigos com as peles de animais. Boêmio de carteirinha, frequentador assíduo do baixo meretrício (que por sinal era na rua que morava e trabalhava), mesmo casado com uma quase menina. Quando Severino soube o que estava acontecendo, foi dar parte ao Juiz, o magistrado deu uns conselhos a João e disse que se isso voltasse a acontecer, ele seria preso, sem perdão. 

Severo morava na Rua das Flores, a poucos passos do cabaré, que funcionava no mesmo arruado, mas nem os conselhos do juiz fizeram com que ele tomasse jeito. Ele dizia ter pena das pobres e infelizes moças.

Além disso, ele não era dado a ter despesas com a casa, que ficava a cargo de Chiquinha, que desde cedo costurava, caseava, pregava botões, etc., e tinha sempre a seu dispor uma grande quantidade de galinhas gordas, fornecidas por seu pai.

Certa vez, numa visita dos pais de João, a sua residência, Chiquinha reclamou que estava faltando carne; no que o marido retrucou que estava sem dinheiro para comprar, embora o açougue fosse atrás do quintal de sua casa; ficava “parede e meia” com seu “muro”. Funcionava na Casa das Pedras. Chiquinha teve de comprar fiado, um quilo de carne de gado e meio quilo de toucinho de porco, ao marcante João Virgílio, que era seu compadre.
Aos trancos e barrancos, este casamento durou 44 anos, até a morte de João. Desse casamento nasceram quatro filhos: Francisca Cleonice, Maria de Lourdes; Maria do Desterro e Francisco. Todos morreram ao nascer, menos Francisca, que ainda chegou há completar oito anos. Chiquinha atribui isso a uma promessa feita. Por não querer o casamento ela, ao sair no quintal, avistou a lua, bem formosa, linda e falou: - Deus te pague santa lua e te acrescente, quando fores, na volta, levai consigo... E fez um pedido. E filho... Se nascer, desse homem, a senhora leve pra si, que eu não quero nenhum! Parece que foi um castigo. Morreram todos. 

O pouco que estudou, foi no Grupo Escolar Simeão Leal, única escola pública do pequeno povoado. 

Depois de inaugurado o Hospital Distrital de Itaporanga, Chiquinha passou a trabalhar lá. Certo dia confidenciou ao meu pai, que era seu colega, que ela passara a noite com dor de cabeça e em consequência, segundo ela: - Meu irmão, esta noite me deu uma dor de cabeça tão violenta, mais tão violenta, que passei a noite toda, tomando Navagina, tomando Navagina e nada da cabeça passar! Com certeza, queria se referir ao medicamento Novalgina.

Ao me despedir da jovem senhora centenária, eu falei, depois de agradecê-la: - Chiquinha, qualquer dia eu venho aqui para conversarmos mais. Infelizmente não houve tempo. Ela teria feito bons relatos de itaporanguenses que mal temos conhecimento de seu nome. Ela faleceu menos de um mês depois. Morreu “qui nem um passarinho”, como diz o matuto. Sem dar nenhum gemido. 

Se viva fosse Chiquinha estaria, hoje (14 de junho de 2017), a completaria 103 anos. Seu corpo se encontra sepultado no Cemitério Mãe de Misericórdia, na cidade de Itaporanga

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