segunda-feira, 15 de maio de 2017

CORTICOIDES POR VIA ORAL. SEU USO, MESMO BREVE, REPRESENTA GRAVES RISCOS PARA A SAÚDE


Os milhões de norte-americanos que recebem prescrições de corticoides por via oral durante um curto período de tempo estão se arriscando ao tomar o medicamento, aponta uma coorte com mais de 1,5 milhões de adultos. No 30 dias subsequentes ao início do medicamento, mesmo quando administrado em doses relativamente baixas, os pacientes apresentaram quase o dobro do risco de fratura, o triplo do risco de tromboembolismo venoso e o quíntuplo do risco de sepse.

Por: Diana Swift - Site Medscape português

"Maior atenção ao prescrever corticoides e maior monitoramento de eventos adversos provavelmente poderão melhorar a segurança do paciente", afirmam o Dr. Akbar K. Waljee, médico e professor-assistente de gastroenterologia da University of Michigan. Esse médico e seus colaboradores apresentaram os resultados do estudo em um artigo publicado em em 12 de abril no periódico British Medical Journal.

Os pesquisadores descobriram que mais de um em cada cinco adultos incluídos no Clinformatics DataMart, grande banco de dados dos planos de saúde, receberam
prescrições de corticoides em curto prazo durante o estudo de três anos, realizado entre 1º de janeiro de 2012 e 31 de dezembro de 2014.

Embora o uso de corticoides conste como a causa mais comum de hospitalização por eventos adversos farmacológicos, e várias especialidades há muito tenham se dedicado a otimizar o uso prolongado deles, os riscos em curto prazo associados a estes medicamentos foram estudados com menos cuidado.

"Embora os médicos se concentrem nas consequências do uso prolongado dos corticoides, eles tendem a não pensar nos riscos potenciais da utilização em curto prazo", disse o Dr. Waljee em um comunicado divulgado pela universidade. "Nós vemos um sinal claro de maior incidência destes três eventos graves nos 30 dias imediatos após a prescrição. Precisamos entender que os corticoides representam um risco real e que podemos estar usando mais do que o necessário. Isto é muito importante dado o modo como muitas vezes esses medicamentos são usados.

As seis indicações mais comuns de corticoides
Dos 1.548.945 adultos com entre os 18 e 64 anos de idade incluídos no banco de dados, 327.452 (21,1%) receberam ao menos uma prescrição de corticoide oral em curto prazo (30 dias ou menos).  A média de idade dos pacientes foi de 45,5 anos (desvio-padrão, DP = 11,6 anos), em comparação à média de 44,1 anos de idade (DP = 12,2 anos) dos que não tomaram (P < 0,001). A duração mediana da utilização dos corticoides foi de seis dias (intervalo interquartil de seis a 12 dias).

As seis indicações mais comuns dos corticoides foram: infecções do trato respiratório superior, doenças da coluna vertebral, doenças dos discos intervertebrais, alergias, bronquite e doenças do trato respiratório inferior não relacionadas com a bronquite. Juntas, estas indicações responderam ​​por cerca de metade de todas as prescrições. As duas especialidades clínicas que prescreveram mais corticoides orais em curto prazo foram a medicina da família e da comunidade e a clínica médica.

Cerca de metade (46,9%) dos pacientes recebeu uma prescrição de um "pacote" de metilprednisolona para seis dias, já contendo o desmame da dose mais alta para a mais baixa. O Dr. Waljee observou no comunicado que, embora cada comprimido de corticoide possa custar menos do que um dólar para um tratamento de sete dias, a versão do "pacote" pode custar várias vezes este valor, e muitas vezes inicia a terapia com uma dose mais alta do que a necessária.

A utilização de corticoides foi mais frequente entre os pacientes mais velhos, as mulheres e os adultos brancos, com significativa variação regional (todos = P < 0,001).

Nos 30 dias após o início do medicamento houve um aumento da incidência de: sepse, com uma razão de densidade da incidência de 5,30 (intervalo de confiança, IC, de 95%, de 3,80 a 7,41); tromboembolismo venoso, com uma razão de densidade da incidência de 3,33 (IC de 95%, de 2,78 a 3,99); e fratura, com uma  razão de densidade da incidência de 1,87 (IC de 95%, de 1,69 a 2,07).

O aumento do risco persistiu com doses equivalentes a menos de 20 mg/dia de prednisona, com uma razão de densidade da incidência de 4,02 para a sepse, 3,61 para o tromboembolismo venoso e 1,83 para a fratura (todos = P < 0,001). Entretanto, a razão de densidade da incidência diminuiu nos 31 a 90 dias subsequentes.

Embora sejam raras, as hospitalizações também foram mais frequentes entre os pacientes que tomaram corticoides em comparação aos que não tomaram, com 0,05% dos pacientes internados com sepse, em comparação com 0,02% dos que não tomaram corticoides. Em relação à formação de trombos, a taxa de internação foi de 0,14% contra 0,09% e para as fraturas foi de 0,51% versus 0,39%. Dr. Waljee e colaboradores consideraram significativo o fato de que os especialistas que mais prescreveram corticoide não fossem os reumatologistas, nem outros especialistas com experiência no tratamento das doenças inflamatórias crônicas.

"Um desafio fundamental para aprimorar o uso  oral dos corticoides será o conjunto diversificado de doenças e as especialidades dos médicos que prescrevem estes tratamentos rápidos", escrevem os pesquisadores. "Isto levanta a necessidade de uma formação médica geral precoce para os médicos sobre os possíveis riscos dos corticoides por via oral e a base científica da utilização deles, uma vez que o uso pode não ser específico para uma determinada doença ou especialidade.

Em função destes resultados, o Dr. Waljee recomendou prescrever a menor quantidade possível de corticoide para tratar a doença em questão. "Se existirem alternativas para os corticoides devemos usá-las quando possível", disse ele no comunicado. "Os corticoides podem agir mais rápido, mas eles não são tão isentos de risco como se pode pensar".

(*) Este estudo foi apoiado em parte pela University of Michigan's Institute for Healthcare Policy. Os autores informaram não possuir conflitos de interesse relacionados ao tema.

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