segunda-feira, 22 de maio de 2017

Ao desqualificar delator, Temer se autoincrimina


Uma das características fundamentais da dificuldade de julgamento é ter que ouvir uma pessoa durante vários anos para chegar à conclusão de que ela não vale nada. Michel Temer conhece Joesley Batista há coisa de seis anos.

Já esteve com o personagem incontáveis vezes. Só agora pecebeu que dava cartaz a um sujeito desonesto e mentiroso. Temer fez hora extra neste sábado para dizer ao país que o dono do Grupo JBS deveria estar preso, não passeando pelas ruas de Nova York.

O presidente atacou seu delator a pretexto de se defender. Não conseguiu senão autoincriminar-se. Temer esteve com o salafrário pela última vez em 7 de março. Recebeu-o no palácio residencial perto de 11 da noite. Sem saber que falava com um grampo a domicílio, tratou-o com rara fidalguia.

O inquilino do Jaburu só notou que o visitante tinha traços criminosos depois que virou um delatado. Ao conviver por tanto tempo com um corrupto, Temer revelou-se moralmente ligeiro. Incriminado pelo ex-amigo, mostrou-se intelectualmente lento.

Qualquer uma dessas velocidades é um insulto. Nenhuma delas é compatível com o que se espera de um presidente da República.


Temer exibe sua indignação ao país em conta-gotas. Regula a dosagem de sua revolta à evolução dos fatos. Normalmente comedido, soou um tom acima.

Em certos momentos, pareceu fora de si, tornando mais mais fácil enxergar o que tem por dentro. Na superfície, fez pose de presidente injuriado.

Entretando, defender sua honra recriminando o delator, soou como se ecoasse a orientação que os criminalistas gravaram no fundo de sua consciência: “Cuidado, você agora é um investigado.
Dependendo do que disser, pode tornar-se réu.”

Uol

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