quarta-feira, 31 de maio de 2017

"A benção, meu pai!"


- A benção, meu pai!”
Há quanto tempo eu não escutava isso?
Para falar a verdade, não lembro. Recordo apenas que costumava pedir tal graça a meu pai. Antes de dormir e ao acordar, este era o primeiro cumprimento que fazíamos aos nossos velhos: “A benção, pai!” , “A Benção, mãe!”.
Depois veio desuso. Pai deixou de ser senhor, virou tu. Mãe teve a sua senhora trocada por você. Ficamos modernos, pra frente, pra frentex. Pai virou pariceiro de filho, mãe, coiteira de filha, pelo menos é o que dizem.
Por isso a emoção ao escutar esse pedido de benção, hoje, na casa de Seu Adolfo e de Dona Anatália.
Seguia para o enterro da mãe de Paulo Márcio, o nosso companheiro de PGE, quando fui instado a passar num endereço de Água Fria para encontrar outro companheiro de lutas que iria se solidarizar, também, com o amigo na dor.
Gilberto Carneiro estava na casa dos pais. Seu Adolpo está com 94 anos. É um senhor tranquilo, de fala mansa, jeito de fidalgo. Dona Anatália tem 85 e ainda conserva, na maturidade, a profunda beleza da sua juventude. Achei-a parecida com minha mãe, dona Emília, a mulher mais bela que já existiu no mundo.
Durante a rápida conversa, fiquei sabendo que dona Anatália e Seu Adolfo tiveram 13 filhos. Treze filhos que ela confessa ter botado no mundo sem precisar de médico e sem ter medo de tê-los. Tanto não teve que jamais tomou remédio para evitar o nascimento de algum deles. E olhando pra Gilberto com aquele olhar de mãe que eterniza sua criança num gesto de profundo amor, desabafa: “Imagina se eu tivesse tomado remédio e tivesse perdido meu tesouro!”.
Os dois estão casados há 60 anos. E com tantos anos passados, Seu Adolfo ainda sente ciúmes de Dona Anatália. Ela mesmo confessa,com jeito matreiro: “Quando me demoro na missa, ele pergunta onde eu estava”.
Seu Adolfo apenas ri com aquela serenidade que enche de calma o ambiente e as pessoas.
E chega a hora da gente ir. E vem a cena que me encheu de emoção: “A benção, pai”, seguindo-se um beijo na mão direita do velho guerreiro. Para a mãe, reservou um beijo na testa.
Ela se despede do filho e avisa que gostou de me ver.
Eu respondo que gostei muito mais, pois ela me lembrou Dona Emília, a mãe a quem não posso mais pedir a benção, porque aqui não mais está.

Tião Lucena

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