quinta-feira, 27 de abril de 2017

Duval Herculano


Ao deixar o sertão da Paraíba, em 1964, José Duval Herculano, hoje aos 66 anos, não imaginava os desafios do novo destino escolhido por ele para construir a vida: Brasília. Aqui, ele se tornaria o primeiro bombeiro militar da nova capital, o responsável por salvar vidas em acidentes, incêndios e até desabamentos. 

Chegar a Brasília, no entanto, não era fácil nos anos 60. Eram necessários dias, quem sabe meses de estrada, para conhecer o sonho de Juscelino Kubitschek. Ainda assim, pessoas de todo o Brasil enfrentaram a jornada por acreditar na possibilidade que nascia. Herculano, à época com 18 anos, estava entre aqueles que apostaram na prosperidade da cidade recém-inaugurada. 

Depois de quase 10 dias em um caminhão pau de arara com outras dezenas de rapazes, ele pisou em solo candango, em 1964. Os viajantes alimentaram-se de farofa de galinha guardadas em marmitas, trazidas da Paraíba. O corpo todo doía. Mas nada tomava o lugar da certeza de que o esforço valeria a pena. 

A primeira imagem de Brasília, a dos barracos de madeira no Núcleo Bandeirante, então Cidade Livre, correspondeu às expectativas do jovem. “Eu era um garotão naquela época. Brasília seduzia os nordestinos - aliás, gente de todo lugar. Mas, por conta da seca, o povo do Nordeste viu uma esperança de melhorar de vida. E assim eu pensei. Queria uma aventura. Peguei o embalo e vim.” 

Duval Herculano é filho de Emitério e nasceu em Itaporanga no dia 27 de abril de 1944. Dê os parabéns a Duval em sua página: https://www.facebook.com/duval.herculano

Vida nova 
Herculano chegou sozinho. Deixou para trás os pais, preocupados com o futuro do filho. Antes, o rapaz trabalhava em uma pequena propriedade rural da família. Em Brasília, passou a aceitar todo tipo de serviço. Vendeu abacaxi e banana e cortou cabelo dos candangos. Até que, depois de seis meses, apareceu à chance de ingressar na Aeronáutica. Herculano tinha se alistado recentemente. Decidiu seguir carreira militar. 

À época, havia poucos bombeiros em Brasília, todos vindos do Rio de Janeiro. A maioria começava a aposentar-se ou a voltar para o estado de origem. Com isso, a corporação passou a convocar novos servidores. Herculano estava no militarismo havia três anos quando soube da oportunidade. Não pensou duas vezes. “Eu nem sabia o que um bombeiro tinha de fazer. Mas sempre gostei de aventura, então eu fui.” 

Como era o oficial brasiliense mais antigo na Aeronáutica entre os que se candidataram ao Corpo de Bombeiros, Herculano teve preferência. Depois de passar por rígidos testes de aptidão física (nadar quilômetros, escalar muros etc.), ele ingressou na instituição com a matrícula de número 675, a primeira a ser registrada em Brasília. Todas as anteriores haviam sido transferidas do Rio. “Muitos outros entraram comigo. Eu ganhei o privilégio de ser registrado na frente por tempo de serviço.” 

Os bombeiros ficavam em um quartel feito de madeira, no Setor Policial Sul. O local era rústico e ganhou o apelido de “forte apache”, em analogia ao estilo de vida desses índios, conhecidos por serem guerreiros. Para fazer comida, era preciso pegar lenha das construções. O quartel de Taguatinga funcionava da mesma maneira. 

Trabalho duro 
Engana-se quem pensa que naquele tempo a vida de bombeiro era tranquila por aqui. Uma das situações mais marcantes ocorreu à época da construção do Banco Central. Houve um desabamento no canteiro de obras. Operários ficaram soterrados. Sobreviveram graças à atuação da equipe de 20 homens do Grupamento de Busca e Salvamento, perto da Vila Planalto, do qual Herculano fazia parte. 

“Algumas pessoas morreram. Mas conseguimos salvar boa parte. Os peões ficaram soterrados até o pescoço. A terra era fofa, difícil de cavar”, lembra. Tempos depois, ele soube que filmaram a ação. Emocionou-se ao ver as cenas incluídas em um documentário sobre os pioneiros do DF. 

Acidentes de trânsito já eram comuns na capital. As largas avenidas do Plano Piloto eram palco para aqueles que gostavam de fazer pegas, apostar corridas, correndo riscos e abusando da velocidade nos eixos da capital. “Tinha acidente demais. A imprudência já era grande. Socorremos muitas vítimas.” 

Além disso, os afogamentos no Lago Paranoá ocorriam com frequência. “Não me lembro de quantas ocorrências desse tipo atendemos naquele tempo. Só sei que foram muitas.” Incêndios também não eram raros. “Os barracos de madeira queimavam facilmente. Certa vez, um mercado inteiro ruiu em minutos, no Núcleo Bandeirante.” 

Certa vez, os bombeiros receberam pedido de socorro vindo de dentro de um hospital psiquiátrico, perto de onde fica hoje a Água Mineral. “Uma mulher subiu na caixa d’água de madeira e queria pular. Dois enfermeiros escalaram o local para buscá-la e ficaram lá em cima. Quando chegamos, eu e mais três colegas, também tivemos de subir. Eram sete pessoas. Felizmente, conseguimos convencê-la a descer. Só aí soubemos que a estrutura da caixa d´água estava condenada. Podia ter caído todo mundo.” 

Enquanto Herculano arriscava a própria vida, a mulher, Maria Soares Herculano, e as filhas ainda pequenas, Lucíola e Luciene, o aguardavam. A família viveu boa parte da vida em Ceilândia e em Taguatinga. Em 1992, Herculano aposentou-se como segundo tenente do Corpo de Bombeiros, depois de 25 anos de contribuição. Ganhou medalha de implantação, ao lado de outros companheiros que ajudaram a fundar o Corpo de Bombeiros Militar do DF. 

Hoje, voltou para a Paraíba. Mora em um apartamento na beira da praia, em João Pessoa. Mas não vende a casa em Taguatinga Sul, na QSC 4. É para o caso de poder voltar quando quiser. Afinal, Brasília dá saudade. “Essa cidade me deu tudo que tenho. É onde me fiz e me realizei. Foi muita batalha e não vou me desfazer dessas lembranças”, definiu Herculano, o bravo bombeiro. 

Cidade sem imposto 
A existência do local estaria limitada ao período da construção de Brasília (1956-1960). Os lotes foram cedidos em sistema de comodato, isto é, a escritura não era definitiva e deveriam ser devolvidos à Novacap no fim de 1959. Para incentivar a vinda de comerciantes para a região, a localidade também estava isenta do pagamento de impostos. Daí a origem do nome Cidade Livre.

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