quinta-feira, 6 de abril de 2017

AUTISMO. PODE SER UM TRUNFO EM CERTAS PROFISSÕES


Mal conhecido no âmbito empresarial, o autismo pode significar um valor positivo em certas funções profissionais. Muitos autistas possuem qualificações acima da média para o desempenho de algumas profissões. O desconhecimento da matéria por parte das empresas faz com que a situação de emprego para essas pessoas seja muito precária.

Por: Aurélie Franc - Le Figaro Santé

"Passei três anos sem conseguir exercer nenhuma atividade. Até mesmo para ser submetido a um simples teste tive de enfrentar obstáculos quase intransponíveis", testemunha Alexandre Klein. Ele é autista militante em algumas associações de defesa da classe. No momento, ele conseguiu um emprego de tempo parcial. Mas, aos 27 anos de idade, teve de sair de casa e se transferir para uma localidade a 400 quilômetros de distância para encontrar uma empresa disposta a acolhê-lo.

É difícil saber o número de pessoas que, na Europa e em todo o mundo, compartilham das mesmas dificuldades de Alexandre Klein, já que não existe nenhuma pesquisa estatística a respeito, pelo menos na França. É esse fato, por sinal, que é apontado em um relatório produzido por Josef Schovanec, também ele autista, escritor e filósofo. Schovanec atua
junto a Secretaria de Estado encarregada das questões ligadas a pessoas que sofrem de alguma deficiência e que por essa razão padecem as mais variadas formas de exclusão. Mas Schovanec diz que existe alguma luz no fim do túnel, e que os primeiro sinais de uma mudança com relação à inclusão dos autistas já podem ser percebidos.

No que diz respeito à taxa de emprego das pessoas portadoras desse handicap, as únicas estatísticas existentes são britânicas. No Reino Unido, cerca de 16% dos autistas trabalham. Quase três quartos dos restantes, que estão desempregados, gostariam de ter um emprego. 

O rigor aplicado em todos os sentidos do termo
No entanto, o autismo, se não for acompanhado de grave retardo mental, ou se o retardo mental é leve, é um distúrbio compatível com o mundo do trabalho. As complicações do espectro do autismo, das quais a expressão é muito heterogênea, afetam principalmente as percepções sensoriais ou acarretam dificuldades de comunicação e de interação social.

Ao contrário, as pessoas autistas podem ser competentes e capazes no mundo do trabalho. "Quando nos lançamos em alguma empreitada, temos necessidade de fazer tudo muito bem, não gostamos de fracassar", explica Alexandre Klein. "Somos produtivos porque desenvolvemos uma verdadeira consciência profissional, e geralmente não estamos interessados em convenções sociais tais como as pausas para o cafezinho ou os cigarros".

"Nossa principal competência é o rigor em todos os sentidos do termo: na assiduidade, pois esses pessoas nunca estão ausentes ou atrasadas nos horários, bem como no trabalho onde eles são igualmente precisos", confirma Olivier Gousseau, diretor de uma empresa que colabora com a Federação das Associações de Adultos e Jovens Handicapados".

Uma visão equivocada do autismo
Uma capacidade de concentração superior à dos padrões normais, a preocupação com o detalhe, e muitas vezes uma grande memória, constituem qualidades reconhecidas dos autistas. Bem como as faculdades sensoriais, que neles são muito mais pronunciadas. 

"Os setores da hotelaria e da gastronomia, por exemplo, são muito convenientes para as pessoas portadoras de autismo", explica Olivia Cattan, presidente da Associação Autismo França.

É preciso no entanto levar-se em conta a hipersensibilidade das pessoas com autismo. Isso requer alguma adaptação por parte das empresas empregadoras. "Eu, por exemplo, durante meu primeiro emprego tive de enfrentar condições de trabalho que para mim eram exaustivas. Estava confinado em um espaço pequeno com outras nove pessoas. Cada um de nós tinha um telefone que tocava sem parar. Isso era excessivo para mim, e ao final do expediente me sentia literalmente exausto", conta Klein.

Mas basta que as empresas levem e conta certas características da personalidade autista, e tudo se resolve facilmente. Olivia Cattan diz que "as pessoas autistas às vezes têm necessidade de ficar sozinhas. Elas, em certos momentos, têm necessidade de ficar isoladas em algum canto, para que possam repousar e recuperar as forças durante alguns minutos. É preciso passar essa informação para os colegas, e instruí-los para que respeitem as necessidades do colega autista. Por exemplo, os colegas não devem ficar aborrecidos se o autista às vezes não os acompanha no almoço ou no cafezinho. Isso acontece simplesmente porque ele tem necessidade de alguns minutos de silêncio e tranquilidade. Os colegas devem colaborar no processo de integração da pessoa autista". 

Alexandre Klein diz que prefere avisar logo de início seus empregadores de que ele é autista. "Isso torna as coisas mais complicadas de início quando se procura um emprego. Mas quando uma empresa me contrata, ela o faz aceitando todas as minhas qualidades e defeitos".

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