quinta-feira, 2 de março de 2017

Quem foi Praxedes Pitanga?


Praxedes da Silva Pitanga chegou tarde à escola. Somente aos oito anos tomou contato com um estabelecimento de ensino, mas aos nove já sabia ler, escrever e contar, uma prova cabal de sua enorme capacidade de aprender e de sua inteligência. Em 1910, frequentando o Colégio Pedro Américo, dirigido pelo professor Manoel Diniz, adquiriu noções de francês, português, história e aritmética, o que lhe serviu, seis anos depois, para fazer os exames preparatórios no Liceu Paraibano, em João Pessoa. Chegou tarde à escola, mas ainda criança demonstrou um extraordinário tino comercial, tanto que antes dos dez anos de idade já negociava com miudezas, nas feiras de Misericórdia, São Boa Ventura e São Paulo, hoje Diamante.

Entre 1913 e 1914 manteve em funcionamento uma grande casa comercial, no centro da cidade, especializada em miudezas, chapéus, ferragens e estivas. Em 1915, no entanto, teve que liquidar o seu comércio. A seca daquele ano o levou a falência. Até algumas cabeças de gado que possuía teve que vender para pagar aos seus credores de Recife, onde adquiria as mercadorias que vendia. Nos anos de 1917 e 1918 fez os exames preparatórios no Liceu Paraibano e foi aprovado no vestibular da Faculdade de Direito do Recife, onde se matriculou, mas não pode frequentá-la por questões de ordem pessoal e política. É que as autoridades estaduais moviam uma severa campanha contra membros da família Jenipapo e muitos deles tiveram que ir embora, passando a residir no Ceará e no Rio Grande do Norte. Pitanga, no entanto, ficou na Paraíba denunciando seus adversários por todos os meios possíveis.

Com a chegada de João Pessoa ao Palácio da Redenção pode, finalmente, na companhia de José Gomes da Silva, assumir o comando político do município. A esta altura já era bacharel em Direito e uma pessoa bastante conhecida nos meios jurídicos e intelectuais da capital paraibana. O levante de Princesa Isabel o encontrou em Itaporanga, de arma em punho, lutando contra os Perrepistas. A sua ação valeu-lhe o cargo de representante do Ministério Público na comissão que apurava o levantamento dos comandados de José Pereira. De Princesa foi para Alagoa Grande como Promotor de Justiça e dali para Itabaiana.

Em 1934 rompeu com José Gomes e registrou uma legenda eleitoral, denominada “Reação Cívica”, que elegeu três vereadores. No mesmo ano foi nomeado por Argemiro de Figueiredo para o cargo de Delegado de Ordem Política e Social, recentemente criado. Em 1937 foi nomeado prefeito de Antenor Navarro, hoje São João do Rio do Peixe, onde foi surpreendido pelo surgimento do Estado Novo. Argemiro de Figueiredo passou de Governador a Interventor e, no dia 08 de dezembro daquele ano, o nomeou Prefeito de Itaporanga, onde permaneceu até agosto de 1940, quando Argemiro foi substituído por Ruy Carneiro na Interventoria do Estado.

Com a redemocratização do país fundou o diretório da UDN em Itaporanga e percorreu as cidades, vilas e povoados do Vale do Piancó defendendo a candidatura de Eduardo Gomes. Em 1946 foi acometido de uma paralisia facial, mas deixou o Hospital São Marcos, em Recife, mesmo sem autorização médica, para participar da campanha em Itaporanga. Ao final conseguiu se eleger Deputado Estadual com uma votação consagradora. Em 1950 foi candidato a Deputado Federal, mas ficou numa suplência. Desligou-se da UDN e passou-se para o PTB de Epitacinho Pessoa. Foi nomeado advogado do Banco do Brasil, mas preferiu ser candidato a Prefeito de Misericórdia, tendo o comerciante Sebastião Rodrigues de Oliveira como candidato a vice. Venceu a eleição derrotando Omar Mangueira e Chagas Soares.

Ao assumir a Prefeitura Municipal comprou um trator para conservação das estradas municipais, botou luz nas 07 vilas do município, inclusive na sede, melhorou o sistema de distribuição de energia da cidade, construiu um grande mercado publico, com 120 por 88 metros, no local do atual; levou um cinema para Itaporanga, construiu os mercados em São José do Caiana e Serra Grande, instalou um serviço de alto falante (a Boquinhha de Pitanga) e implantou vários campos de agricultura mecanizada e postos para a distribuição gratuita de medicamentos. Pitanga iniciou as obras de um sodalício onde, anos depois, foi erguido o Itaporanga Esporte Clube.

No seu primeiro mandato construiu um açougue na Rua Argemiro de Figueiredo e estabeleceu a remoção do lixo urbano em carroças de tração animal. Foi ainda o responsável pelo novo trajeto urbano da cidade. As ruas da velha Misericórdia eram todas elas construídas no sentido norte-sul. As novas ruas por ele projetadas são todas no rumo do oeste. Vejam a Getúlio Vargas, a Soares Madruga (Pedro Américo), a Horácio Gomes, a 13 de Maio (Rua da Gaveta), a São José, a Manoel Medeiros Maia (Marques do Herval) e outras. Para estimular a construção de prédios nas artérias projetadas ele próprio, mandou edificar uma enorme casa, onde funcionou a Sétima Região de Ensino (Regional) e o CAPS e é onde é atualmente a Secretaria Municipal de Infraestrutura e Urbanismo (Seinfra), e também, um dos maiores hotéis do sertão, na Getúlio Vargas, o Grande Hotel. O hotel desapareceu e no terreno foi construído o complexo comercial de Francisco Pinto Brandão & filhos, e a agência do Banco do Nordeste do Brasil.

Renunciou ao cargo de Prefeito para ser candidato a Deputado Federal pelo PTB, mas novamente não obteve êxito. Argemiro, eleito Senador e Deputado Federal decidiu-se pelo Senado e Pitanga, finalmente, pode ir para o Congresso Nacional. De 1955 a 1958. Destacou-se pelas matérias que apresentou, os discursos que pronunciou e as atitudes que adotou nos momentos mais difíceis da vida nacional, como a votação pelo impedimento de Café Filho e Carlos Luz, quando votou contra. Em 1962 tentou voltar à Câmara Federal, ficando numa suplência ao lado de Raimundo Asfora e Arnaldo Lafaiete. Depois deste insucesso revolveu abandonar a política o que fez em 1967, quando voltou à sua condição de Promotor de Justiça, primeiro em Itaporanga, depois em Campina Grande e finalmente, em João Pessoa.

Aposentou-se com as honras de Desembargador e com as vantagens financeiras compatíveis ao cargo. A partir daí foi para a sua banca de advocacia, voltando a ser aquele advogado irreverente, corajoso e inteligente que a Paraíba aprendeu a admirar e a respeitar. Praxedes da Silva Pitanga não foi apenas um advogado. Foi um dos melhores que a Paraíba produziu nos últimos 100 anos. Acusando ou defendendo sempre prendia a atenção dos jurados, platéia, juiz e demais integrantes da Corte. Sua inteligência brilhante e a sua sagacidade eram aplaudidas e reconhecidas por todos. Como político, sempre fazia valer o seu ponto de vista e foi o único itaporanguense a passar pela Prefeitura de Itaporanga, em duas oportunidades distintas, como interventor e como prefeito eleito, pela Assembléia Legislativa e pela Câmara dos Deputados.

Pitanga era filho de Maximiano de Sousa Conserva e Porfiria Ilovina Conserva da Silva e nasceu no dia 02 de março de 1896, em Misericórdia. Casou-se com Maria Regina Guedes Pereira Pitanga e desta união nasceram Marcelo Maximiano, Frederico Augusto (Fred) e Maria Alzira. Faleceu no dia 27 de março de 1991, em João Pessoa, e foi sepultado no Cemitério Senhor da Boa Sentença. 

Pitanga foi Candidato a “O Itaporanguense do Século”, mas obteve apenas 74 votos (4,9%), ficando em quarto lugar.

Também é atribuído a Pitanga a mudança do nome da cidade que antes era chamada Misericórdia em homenagem a imagem de Nossa Senhora do Rosário, estatua que veio diretamente da Freguesia de Misericórdia em Lisboa – Portugal e que durante muito tempo foi à padroeira da comunidade. Por intransigência do grande advogado, a cidade se chama hoje Itaporanga, que na linguagem Tupi-guarani significa Pedra Bonita.

Sobre a aguçada inteligência de Pitanga, contam-se várias histórias, coma a que ao defender um rapaz acusado de roubar um cavalo e Pitanga perguntou ao réu, na frente do Juiz: - Me tire uma dúvida, quando você foi abordado, vinha puxando ou montado no animal? O rapaz respondeu: Vinha montado doutor! Virando-se para o magistrado, o ardiloso defensor, bradou: Isso prova que meu cliente não roubou o cavalo nenhum.

Do Livro: Se essa rua fosse Minha - Volume I
Paulo Rainério Brasilino

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