segunda-feira, 27 de março de 2017

O ÚLTIMO PRESIDENTE DA PARAHYBA


RAMALHO LEITE

Pelo decreto número 01, de 15 de novembro de 1889, que instituiu a República Federativa do Brasil, as antigas províncias imperiais passaram a se denominar estados. Seus gestores seriam chamados de governadores e nomeados na qualidade de delegados do governo provisório que se estabelecera  sob a chefia do marechal Deodoro da Fonseca. A primeira Constituição republicana, de 24 de fevereiro de 1891, mudou a designação dos administradores estaduais para  presidentes de estado. Assim, o primeiro governante da Parahyba, o juiz Venâncio Neiva era tratado por governador. Seu sucess or, o major do exército Álvaro Machado seria o nosso primeiro presidente do Estado. O último  foi o intelectual e imortal, um dos fundadores da nossa Academia de Letras, Álvaro Pereira de Carvalho, que sucedeu a João Pessoa.

Até receber das mãos de João Pessoa o cargo de presidente da Parahyba, o professor Álvaro de Carvalho percorreu um longo caminho. Encontrei-o em 1908, nas páginas de “A Cidade de Bananeiras”, em um sábado festivo, participando ao lado do mestre-escola Sólon de Lucena, ambos acadêmicos de direito, de solenidade no Instituto Bananeirense. O jornal  narra sua participação: ”Nesse momento assomou a tribuna o professor Álvaro de
Carvalho. A oração do nosso talentoso colega, além dos bens lançados conselhos sobre a responsabilidade e o objeto da educaç&ati lde;o de nosso tempo,foi um brado sincero de estimulo,uma cadeia de palavras confortantes e animadoras para os que ensinam e os que aprendem”. A platéia ouviu ainda a Solon de Lucena, sem imaginar que, em futuro próximo seriam os dois, nomes de elevada projeção no cenário político estadual. Há quem atribua a Celso Cirne a iniciativa de levar para o distrito de  Moreno o professor Álvaro de Carvalho, depois, requisitado por Sólon, para Bananeiras, e com ele irmanado na caminhada que empreenderam até o fim de suas vidas.

Com Solon de Lucena, Álvaro de Carvalho incorporou-se aos “jovens trucos”, grupo epitacista de vanguarda que acreditava na força do mercado do interior incorporando-se ao litoral, para promover o desenvolvimento do Estado. A ascensão de Solon ao governo da Parahyba levaria Álvaro ao seu secretariado e, depois, ao mandato de deputado federal, donde saiu para exercer a primeira vice-presidência do Estado. Aí começaram os seus dissabores. O crime da Confeitaria Glória iria encontrá-lo à frente do governo. Na noite anterior, João Pessoa lhe passara o cargo. De substituto eventual, tornou-se presidente efetivo com a morte do titular. Começava a gestão, que durou 70 dias, do último presidente da Parahyba. Era 26 de julho de 1930.

Na véspera, Álvaro tentara demover João Pessoa dessa temerária viagem ao Recife, cidade infestada de inimigos. Seu irmão Osvaldo, desejava acompanhá-lo. Foi demovido da idéia, sob a ameaça, caso insistisse,  de desistir da viagem projetada.O que tem de acontecer tem muita força, diria José Américo. A triste notícia chegou ao início da noite e “espalhou-se célere e, dentro em pouco, a Paraíba levantava-se desvairada como um só homem, num grito horrível de desespero e de vingança”,conta Álvaro de Carvalho. O sucessor de João Pessoa manteve todo o secretariado escolhido pelo pranteado morto.  E era dentro desse corpo que se tramava a conspiração que culminaria na chamada Revolução de 1930. Juarez Távora estava escondido “na casa do meu líder na Assembléia, e eu não o sabia”. Logo na manhã de 4 de outubro a Revolução fez de Álvaro a sua primeira vitima.

Segundo José Américo, “não foi deposto oficialmente, a meu pedido.Nossas relações tinham esfriado, mas eu devia esse gesto.Pensei encontrá-lo sucumbido e estava,admiravelmente sereno, a mostrar que a hora da  adversidade era também a das afirmações”. Para Álvaro de Carvalho essas “relações esfriadas” só chegaram ao seu conhecimento a partir da publicação das memórias do autor de A Bag aceira em 1948. Desde então, afastaram-se definitivamente: “Mas continuo a julgá-lo, hoje, como sempre: honesto,apaixonado,medianamente sociável para os que o procuram,agressivo para os desafetos,cheio de excelências para o seu Eu, virtude que as posições exaltaram,talvez desmesuradamente”, escreveria anos depois.

Homem comedido e, preocupado, apenas, em atender aos reclamos da sua consciência, Alvaro de Carvalhoa não agradou aos  mais apaixonados seguidores do Presidente imolado. A Revolução estava sendo tramada ao seu redor, sem que ele tomasse conhecimento de nada. Gerou-se uma agressiva desconfiança contra seus atos. Foi censurado até por designar o tratamento de Excelência ao presidente da República, a quem se queria atribuir responsabilidade pela morte de João Pessoa. Considerado, injustamente, um traidor dos ideais defendidos pelo seu antecessor, teve que se afastar na Para&iacu te;ba por alguns anos. Foi levar sua experiência de professor à juventude da cidade de Santos. Pobre a vida inteira, regressando ao Estado, conseguiu uma modesta moradia para a família através do antigo Montepio. Nessa casa da rua Artur Aquiles foram feitas as primeiras reuniões da Academia Paraibana de Letras.

Membros do Congresso Nacional registraram-lhe o perfil, nas homenagens tributadas por ocasião de sua morte, em 1952. O então deputado Samuel Duarte,  encaminhando o requerimento de pesar, destacou:  “Os acontecimentos de 30 o surpreenderam no exercício da Suprema Magistratura do Estado e ele se conduziu com tal espírito de tolerância, de elevação e de patriotismo que pode conquistar a admiração de seus próprios adversários”.

“No tumulto que caracterizou seu breve período de governo, conduziu-se  o dr. Álvaro de Carvalho com inexcedível dignidade,deixando em nossa história política um alto exemplo de fidelidade aos deveres do seu partido e mais particularmente à liderança de Epitácio Pessoa”, registrou o deputado Osvaldo Trigueiro de Albuquerque Mello. Para o jornalista Assis Chateaubriand, à época  senador,   Álvaro de Carvalho “como mentor da juventude do Liceu Paraibano, como guia político dos seus concidadãos fazia questão de ser impecável, antes de tudo, com a sua consciência”.

Darei, afinal, a palavra, a esse grande paraibano de quem me ocupo hoje, para encerrar, neste espaço,  sua pequena grande história: “Tres dias depois da Revolução, voltei ao Liceu e assumi o meu posto de professor.Deste modo,renunciei ao cargo  que ocupava e à vida publica em que fui mal sucedido.Decididamente não tinha o estofo onde se talham os heróis”. ( Consultei Ademar Vidal, Osvaldo Trigueiro Mello e Álvaro de Carvalho em, “Nas Vésperas da Revolução”)

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