domingo, 5 de março de 2017

ANIMAIS QUE SÓ FALTAM FALAR. ELES NOS ENSINAM A ARTE DA COMUNICAÇÃO


Cães em casa de repouso, cavalos na frente do prédio, bares de gatos para cidadãos estressados... A valorização dos animais como companhia e até como ferramenta de cura está cada vez mais em alta. Em entrevista, o psicólogo clínico francês Philippe Hofman - que acaba de publicar «O cão é uma pessoa. Psicologia das relações entre o ser humano e seu cão" (Editora Albin Michel), diz que o cachorro, especialmente, promove a integração e o diálogo entre as pessoas da casa.

Por Pascale Senk – Le Figaro Santé

Há dez anos, começávamos a discutir a respeito das contribuições dos cães e gatos em casas de repouso; hoje, trata-se de um fato consumado: os quadrúpedes domesticados incentivam os moradores mais velhos a se levantarem, andar, serem ativos. Mas benefícios
inesperados também foram observados. «Descobrimos especialmente que os cães facilitam também as relações entre os profissionais da saúde», explica Boris Albrecht.


Marine Grandgeorge, doutora em psicologia, que realiza pesquisas no laboratório de etologia animal e humana de Rennes, confirma isso, e ainda se surpreende: «O animal é realmente um “terceiro regulador”, é por isso que ele é tão bem vindo na mediação. Sua presença influencia os comportamentos dos seres humanos entre si. Estudos até mostram que se um animal estiver presente, as pessoas se olham, conversam mais… E as pessoas com deficiência, se estiverem acompanhadas por um animal, elas triplicam a quantidade de olhares trocados com as outras pessoas e com os bichos.» Sem dúvida, o animal tem, segundo os pesquisadores, um papel de «lubrificante social», ainda mais evidente quando as ligações entre os homens ficam mais pobres. Por que tanto sucesso?: «O animal não julga, especifica Marine Grandgeorge. Podemos, portanto passar por ele para romper as barreiras.»

Cavalos na frente do prédio
O recurso à mediação animal está se expandindo em muitas áreas: justiça (para a vida na prisão), mundo da deficiência (tanto problemas físicos quanto psicomotores), cuidados paliativos… E esta aliança assume formas renovadas. Em Dole, na França, um centro equestre foi estabelecido no coração da cidade para que, todos os dias, jovens problemáticos venham alimentar e cuidar dos cavalos;  os moradores também colaboram, o que promove a comunicação local. Na fazenda de Nat, no Maine-et-Loire, pessoas com deficiências múltiplas vêm desfrutar de momentos especiais com burros, animais muito procurados atualmente por sua inteligência (pois é!), sua curiosidade e seu sentido de contato. «Com o animal, o vivo e o sensível se impõem em qualquer situação », resume Boris Albrecht.

Na hora das relações através de telas interpostas, esses animais reconectam os seres humanos a algo primordial em fuga. «Como as cabanas na natureza ou a prática do tricô, eles nos fazem lembrar como a simplicidade alimenta», observa Marine Grandgeorge. E essa pesquisadora menciona "bares de gatos", nos quais esse felinos preenchem a falta de contatos táteis das pessoas estressadas. «Nós, seres humanos, precisamos ser tocados e tocar, ela afirma. Um estudo mostrou especialmente que, quando um médico, toca o braço do paciente no final da consulta, a adesão aos tratamentos deste último melhora… E sua saúde também.»


Do animal-ferramenta para o animal-parceiro
Os animais também podem nos ensinar muito em termos de comunicação: «O cão e o cavalo, especialmente, sabem detectar nossas mudanças emocionais e hormonais ao observar certos indícios em nossas expressões faciais», explica Marine Grandgeorge. Através desse talento, eles passaram do animal-ferramenta para o animal-parceiro. Quanto ao gato, sua capacidade de atenção deve nos inspirar. «Todos esses animais nos ensinam que somente a verdadeira presença funda um relacionamento de qualidade.»

ENTREVISTA COM PHILIPPE HOFMAN
 Le Figaro - Veterinários e etólogos (estudiosos do comportamento animal) são os profissionais que estudam as relações entre o homem e o animal. Por que, como psicólogo, você está tão interessado nesse assunto?

Philippe Hofman - Como especialista em crianças e adolescentes, e também em gerontologia, tenho observado bastante a evolução da família, e especialmente sua extensão. Com a multiplicação das famílias mistas, a visão que eu poderia ter se ampliou e, gradualmente, os animais domésticos apareceram para mim como membros de pleno direito dessas famílias: eles incentivam as crianças a se levantaram e a andar, tornam-se confidentes dos adolescentes, são objeto de conflitos no momento de separações… Constatei também que no caso de famílias fechadas, em que os familiares em si eram fechados, eles eram às vezes, uma solução rápida para estabelecer contato.

Você diz que o cachorro, especialmente, promove a vida social. Como?

Ter um cão estimula o contato social. É ainda melhor do que crianças: passeie com um animal de estimação na coleira e naturalmente, você irá trocar algumas palavras com alguns transeuntes ou outros proprietários que você irá encontrar. Às vezes, os encontros geram verdadeiras confidências. O pretexto do cão leva a falar sobre si mesmo, sem complexos, sem tabu, na imagem de nosso cão que entra em contato direto, por vezes triviais com seus congêneres. Neste compartilhamento social, os cães nos ensinam a alteridade, a ligação com o desconhecido, e nesse sentido, eles contribuem para nossa humanização. Em um mundo egocêntrico e higienizado, eles nos remetem ao compartilhamento, ao contato e à animalidade.


Do ponto de vista afetivo, especialmente, você afirma que eles são parceiros incomparáveis …

Sim, por que com eles, nossa comunicação é ao mesmo tempo direta e autêntica. Não há necessidade de fazer joguinhos! Com os seres humanos, as ligações são sempre um pouco complexas, cheias de questões inconscientes, é preciso «nos domar»… O cão, especialmente, mais constante que o gato, nos convida a uma relação imediata inequívoca. Em seu olhar, ele parece absorver toda nossa dor moral e nos remete a uma dimensão cuidadora. Eu acho que com nosso animal de estimação, cão ou gato, podemos encontrar as emoções das trocas primárias. Nesse sentido, para aqueles que estão em uma angústia profunda, mentalmente deficientes a ponto de estarem na rua, por exemplo, uma regressão suave e natural é feita através do animal que as acompanha.

Esta específica ligação também pode ajudar em caso de provação?

Inegavelmente. Sabemos que em caso de luto, a presença e a manutenção do vínculo com o animal doméstico são primordiais: ele faz você viver, continuar apesar da ausência daqueles que você perdeu. Em caso de doença grave, eles são poderosos: nosso gato ou nosso cão têm tal vitalidade que, estando enfraquecidos, podemos confiar-lhes nossa tristeza ou angústia profunda, enquanto que com nossos parentes é mais delicado. Eu acredito que nos serviços de cuidados paliativos, especialmente, os animais poderiam ajudar a exorcizar e apaziguar a angústia da morte dos pacientes, mas também a dos seus familiares. 

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