quarta-feira, 8 de fevereiro de 2017

ZÉ DE TAXIM


Em matéria de doido, não se pode esquecer que de gênio e de louco, todos nós temos de tudo, um pouco. Mas Zé de Taxim, tio de Chico Alves (o grande boêmio Chico Barata). Era realmente um doido exemplar, pois, a voz corrente, dizia-se que tinha perdido o juízo por uma donzela bonita do lugar – Misericórdia, como chama meu irmão Amaro Gonzaga Pinto Filho, ainda hoje, fazendo sua defesa do nome por considerar mais compatível com as origens para as quais fora criado o município. 

Zé de Taxim usava uns óculos de lentes pequenas e hastes finas que ele dizia ser folheadas a ouro, e pregava com cola as orelhas para não levar “caçoletas”, dos meninos do povoado. As lentes dos seus óculos não tinham grau. Quando quebrava uma, ele ia à oficina de Dedeu para Adailton fazer-lhe outra, de vidro comum.

Chico Augusto, meu tio, muito brincalhão, uma vez apostara com ele que se dissesse o nome de todas as capitais dos países do mundo, sem errar e tomar fôlego, dar-lh-ia uma folha de pão doce, e uma lata de doce de goiabada para comer de uma só vez. Não deu outra, Zé engoliu a folha de pão e a lata de doce, pois que dissera de um só folego o nome das capitais de todos os países do mundo.

Era ou não um doido inteligente?!

Seu nome de batismo era José Eustáquio de Farias e nasceu aqui mesmo, no Sítio Barrocão, na parte que pertence a Boa Ventura, quando São Boaventura era um Distrito que pertencia a Itaporanga, no dia 08 de fevereiro 1930.  O apelido de José não era Zé de Tachinha, como pensam alguns, mas sim, Zé de Taxim! Taxim por sua vez, era o apelido de seu pai, Antônio Farias! – o Careca da Lua, sua mãe era Antonia Alvarenga, conhecida por Totó. Ele chamava qualquer pessoa de colega e se desse algum trocado ou uma lata de goiabada, ele diria a Capital de todos os Países do Mundo. 

Zé Farias ou Zé de Taxim, antes da esquizofrenia o atacar, era homem normal. Serviu ao Exercito, na Capital Federal, na cidade que é considerada Maravilhosa, o Rio de Janeiro, que segundo o poeta: continua lindo... Apesar dos pesares. No Rio ainda trabalhou de garçom no Cassino Rio Mar.

Voltou a Misericórdia, foi quando a doença o acometeu, tornou-se violento a tal ponto, que a família o mandou para São Paulo, para tratamento. Lá, a medicação foi aos poucos tirando o seu ânimo, deixando-o no estado de apatia completa e indiferença ao mundo. Foi assim que muita gente, mais nova, o conheceu em Itaporanga! 

A família não soube explicar como, mas crê que ele fugiu do hospício e trabalhou como cobrador de ônibus, lá mesmo, na capital bandeirante. Transferido pra João Pessoa, passou uns tempos no Manicômio Juliano Moreira. 

Zé era um alfaiate vistoso, elegante, em Misericórdia. Foi na época um homem muito bonito, um verdadeiro galã. Dizem até, que era o mais bonito da cidade.

Zé de Taxim era demais, fazia um charme danado para subir um batente. Andava pela Getúlio Vargas no meio da rua e só subia os canteiros com o pé direito, voltando quantas vezes fosse necessário, para acertar o passo.

Uma outra mania que ele tinha: Chupava um “caçuá” de mangas só pra abrir o apetite. Zé de Taxim parava lá em Seu Nezim Gabriel para um desafio que a galera se amarrava. Ele ganharia uma lata de goiabada e um queijo ou uma folha de pão doce (que comia ali mesmo), se declinasse o nome de todos os países (na geografia da época), com suas respectivas capitais, o que ele sabia de cor. A graça estava em atrapalhá-lo quando ele já havia dito a metade ou quase todos, pois, como decorara em ordem, tinha que recomeçar tudo de novo. Ele dizia de cor, mais não salteado.

Descobri depois outras do Zé: Só andava de terno e, como ganhava os ternos menores que seu tamanho, ele mesmo costurava (afirmam que já fora exímio alfaiate) uma “nesga” atrás da calça para aumentar a cintura. Ele pedia dinheiro, dizendo que era para poder ir assumir a Presidência da República.

Zé ao se “prostar”, a família Pedrosa/Alvarenga (Família de Assis Pacífico) foi quem deu toda assistência, até a sua morte, que ocorreu no dia 09 março 2005, aos 75 anos. É tanto que seu féretro foi sepultado no túmulo da família, ao lado de Assis Pacífico e Coló, como era conhecida Dona Clotildes Alvarenga, esposa de Assis.

O nosso alfaiate maluco era primo dos irmãos cantores Dom & Ravel (Eustáquio nascido em 21 de agosto de 1944 e Eduardo em 13 de outubro de 1947), ambos de sobrenome Farias. A dupla encantou o Brasil com grandes sucessos musicais, como: “Eu te amo meu Brasil”, que estourou nas paradas, quando a Seleção Brasileira ganhou a Copa do Mundo no México. E aquela que ficou conhecida como o Hino do Mobral, a música “Você também é Responsável”, ou ainda Animais Irracionais, e tantos outros, que marcaram época.

Do Livro: Polidores da Pedra - Volume I
Paulo Rainério Brasilino

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