quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

MICRÓBIOS. SENHORES E ESCRAVOS DO HOMEM


Cada corpo humano abriga em seu interior, e também sobre a superfície da pele, um verdadeiro zoológico de criaturas vivas, os micróbios. O microbiologista Patrice Debré, em seu livro "O homem microbiota", explica a riqueza da relação entre o homem e os bilhões de microorganismos que o habitam.

Por Soline Roy - Le Figaro Santé

Por mais que conheçamos nossos clássicos de medicina, certa vertigem surge a partir do livro de Patrice Debré. Sem dúvidas, os livros e os meios de comunicação ecoam regularmente sobre trabalhos efetuados sobre o microbiota, este conjunto de bactérias que reveste nossos intestinos; do lado de fora do homem como em suas profundezas, elas estão por toda parte e são inúmeras.

Mas mede-se perante o homem microbiota, a que ponto as relações humanas com suas bactérias são muito mais que um eterno conflito.

“Uma vida em comum, que é o resultado de um equilíbrio delicado”, escreve o famoso professor de imunologia. “Há mais bactérias em nosso organismo que células somáticas,
as que compõem nossos órgãos, e isso nos obriga a algumas tarefas e, acima de tudo, nos obriga a conhecê-las”, argumenta o autor ao nos apresentar “as mil e uma facetas da vida em comum do homem e dos seus micróbios”.

Sem bactérias não haveria vida na Terra, muito menos a humanidade, insiste o médico. “Estando vivos, elas habitam dentro de nós; mortos, elas nos devoram”. Nascido sem micróbios, o homem nunca deixa de ser povoado por tudo que fará sua microbiota, cuja riqueza é “herdada de nossa mãe no momento do nascimento, de nossa mesa que a modula, de nossos beijos que a distingue, de nosso ambiente que a condiciona”.

Muito cedo em sua história, a humanidade entendeu vagamente que ela não estava realmente sozinha. “Há mais animais” que se acumulam sobre os dentes de cada um de nós que seres vivos em todo o reino”, escreveu em 1683 o primeiro descobridor deste “mundo invisível”, Antoni Van Leeuwenhoek, comerciante de tecidos. Mas vislumbrar não é compreender e o caminho ainda é longo antes que o homem conheça realmente o que o povoa.

Os defeitos da higiene
Em seguida, Patrice Debré relembra a aventura da microbiologia, ele nos narra a vida das bactérias, das leveduras e dos fungos que nos moldam, explora as relações complicadas do homem e seus inquilinos microscópicos.

“A peste negra atingiu muito mais os espíritos que os processos íntimos da digestão”, concorda Patrice Debré. E é bastante irritante, realmente, essa ideia de que nós, como seres pensantes e julgando-se superiores, somos colonizados e regidos por esses bilhões de organismos!

No entanto: se o homem usa seus micróbios (eles digerem os alimentos por nós, constroem nosso sistema imunológico, previnem as invasões por seus colegas patogênicos…), as bactérias também utilizam o homem para sobreviver e se desenvolver. “Cada um é mestre e escravo do outro”, conclui Patrice Debré.

As bactérias nos assustam, o produto de nossos intestinos nos enoja? Mas se a higiene e os antibióticos têm impulsionado a expectativa de vida, a lista das doenças para as quais suspeitamos que a microbiota desempenha um papel se alonga (asma e alergias, obesidade, doenças auto-imunes, doenças mentais, certos tipos de câncer…).

Preso entre micróbios “bons” e “ruins” entre comensais e patogênicos, talvez fosse tempo para que o homem finalmente aprendesse a dançar um gracioso “tango a três”.

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