sábado, 11 de fevereiro de 2017

DOUTOR, O CASO É SÉRIO? O DIFÍCIL MOMENTO DO ANÚNCIO DE UMA DOENÇA GRAVE


Um soco na cara para o paciente e, às vezes, um teste de controle emocional para o médico: o anúncio de uma doença grave é o momento determinante da relação médico-paciente.

Por Pascale Senk – Le Figaro

«A sensação de se jogar do topo de uma montanha », «de que um alçapão se abriu sob meus pés »… Assim qualificam este momento especial aqueles que receberam o diagnóstico de uma doença grave, quando seu médico lhes disse, no devido tempo, o conteúdo da informação. «De repente, a ameaça de morte na qual nunca pensamos se torna tangível », explica uma paciente que passou pela experiência.

Mas há também outras formas… Por um longo tempo, elas não pouparam os pacientes. A jornalista Marie-Dominique Arrighi, com diagnóstico de câncer de mama, contou em “K, histoires de crabe”  (Editora Bleu Autour) como, por telefone, seu oncologista lhe contou «é positivo», ela teve que traduzir esse «dialeto específico » e compreender que, na realidade, as análises de sua biópsia tinham sido muito ruins. «O pior, foi a falta de clareza », diz Véronique, paciente diagnosticada em 2010. «A falta de clareza do radiologista antes dos resultados da biópsia,  a falta de clareza da ginecologista que me disse: “É o que temíamos.” Paradoxalmente, comecei a respirar quando o cirurgião, que parecia seguro de si, me disse de modo claro: “Vou retirar esse câncer e tudo vai dar certo.”»

Uma vida fraturada
As situações temidas (anúncio por telefone ou dado como uma bomba entre duas portas, no corredor de um hospital, em público…), tão prejudiciais para o relacionamento do paciente com seus médicos, suscitaram a partir de 1998, a criação bastante formal de uma «Consulta do Anúncio» enquadrada por recomendações específicas (ela deve durar um tempo mínimo de 45  minutos, ser seguida por uma entrevista com uma enfermeira…). Se grandes progressos nesta área devem ser louvados, a verdade é que este anúncio coloca cada um de nós face às questões existenciais.

Os médicos, em primeiro lugar: seus conhecimentos técnicos, tão intensamente assimilados durante longos anos de estudos parecem ser apenas um aspecto de seu ofício. Poucas atividades profissionais enfrentam diariamente este outro desafio: o de ser  portavoz de uma ameaça de morte. «Os médicos recebem alguns diagnósticos que são como uma bomba em suas mãos, diz a psicanalista Martine Ruszniewski (autora junto com Gil Rabier de “L'Annonce. Dire la maladie grave, (Éd. Dunod). Eles devem estar cientes que detêm uma informação que vai trazer muita dor à vida de alguém. Sua competência deve ser preenchida de humanidade e se trata de estabelecer um encontro.»

Banir o pessimismo
De seu lado, o Dr. Laurent Puyuelo, médico oncologista especializado em cirurgia da mama e ginecologista perto de Toulouse, por ter observado muito seus mestres mandarins fazê-lo, conseguiu realizá-lo um dia. «Tratava-se de uma paciente de 14 anos de idade, que se chamava Ophélie e sofria de um tumor ovariano extremamente grave… Eu tinha que lhe dizer, ele lembra. Não consegui dormir por várias noites e então comecei a escrever tudo o que me vinha à mente sobre os tipos de anúncios». O «muito emocional »,  que erra e se transforma em um fiasco, «o artístico», quando efetuamos no «piloto automático»… Toda essa galeria de “Consultas de Anúncios” se transformou em um livro original e sensível, publicado em 2011 (“Cancer du sein, un médecin à l'épreuve de l'annonce” - Editora Érès). «Todo mundo está à beira do precipício», ele resume. No primeiro momento , os familiares vieram apoiar o paciente,  às vezes desmoronam antes dele; ou outras crises estouram: como duas irmãs que desabam diante de sua mãe doente, do casal que desmorona… «É preciso saber estar a par de cada situação e oferecer apoio, ele acredita. Sempre somos capazes de encontrar o fio de esperança que mudará tudo.»

O pior de tudo, é o pessimismo exibido pelos médicos, confirmam os pacientes. Em um estudo realizado durante três anos por uma equipe de hematologistas, uma paciente solicitou: «Os hematologistas deveriam permanecer atentos quanto aos relatórios do diagnóstico e riscar a palavra “infelizmente” de seu vocabulário. O meu continha três. Como manter a moral em face de tanto pessimismo?» Muitos especialistas da psique acreditam também que, renascida graças ao câncer, a dimensão existencial do anúncio – que também é encontrado nos diagnósticos de infertilidade, de esquizofrenia ou de Alzheimer – nos coloca sobre um verdadeiro problema social: Por que não estamos mais familiarizados, antes mesmo que a doença chegue, com a ideia da nossa própria mortalidade?

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