terça-feira, 24 de janeiro de 2017

ASPARTAME, SACARINA, SORBITOL. OS ADOÇANTES ARTIFICIAIS SÃO PERIGOSOS?


Em doses elevadas, os adoçantes sintéticos como o aspartame parecem aumentar a incidência de cânceres em roedores. Mas nada ainda foi comprovado em seres humanos.
  
Por Anne Lefèvre-Balleydier – Le Figaro

Para o Instituto Ramazzini, da Itália,  centro privado de pesquisas sobre as relações entre ambiente e câncer, não há nenhuma dúvida: os adoçantes, e em especial o mais comum deles, o aspartame, devem ser evitados. Mas os especialistas da Agência Europeia para a Segurança dos Alimentos (EFSA) não concordam. Eles avaliaram a inocuidade deste adoçante, sob a pressão de várias associações.

Conclusão: «O aspartame e seus produtos derivados são seguros para o consumo humano em níveis de exposição atuais.» Fim da discussão? Não. Produto de síntese composto por dois aminoácidos, o aspartame engavetou a sacarina, outro adoçante artificial. Seu poder adoçante forte, duzentas vezes superior ao açúcar, é obviamente uma vantagem: ao utilizá-lo em vez da sacarose, poderíamos reduzir as quantidades de calorias ingeridas, prevenir o
ganho de peso excessivo e todos os riscos que lhe são associados. Mas em 1975, um ano depois de ter sido aprovado para sua comercialização, a autoridade sanitária americana (a Food and Drug Administration, ou FDA) voltou na sua decisão.

O aspartame ainda divide os especialistas em saúde
Vários anos e vários estudos foram necessários antes que o aspartame fosse novamente oferecido no mercado em 1981. Desta vez, com o sinal verde da FDA, e também da União Europeia e da Organização Mundial da Saúde (OMS). No entanto, vozes insurgem contra seu uso. O aspartame não está na origem das enxaquecas, das alergias e mais grave ainda, de cânceres? Na Universidade de Washington, em 1996, o Dr. John Olney e sua equipe viram de fato no aspartame, o principal responsável pelo número crescente de tumores do cérebro. Mas sua metodologia bem como a interpretação dos dados são severamente criticadas pelas autoridades sanitárias, especialmente na França. No entanto, as dúvidas persistem.

E os três estudos realizados no Instituto Ramazzini não vão fazer nada para eliminá-las. No primeiro, publicado em 2006, o Dr. Morando Soffritti e seus colegas observaram que em doses muito elevadas, o aspartame aumenta a frequência dos cânceres do sangue e dos rins em ratos. O segundo estudo, publicado no ano seguinte, reforça esses resultados, mostrando que doses próximas das que são aceitas no homem também provocam efeito. Finalmente, em 2010, a equipe de Soffritti fez a ligação entre o aspartame e outros tipos de cânceres (fígado e pulmões), desta vez em camundongos machos. Ainda assim, todos esses estudos foram rebatidos com muita facilidade pela EFSA.

Polêmicas e desafios metodológicos
Primeiramente, a agência assinala que os efeitos observados no animal ocorrem com altas doses e/ou ao longo da vida: dado nosso nível de consumo de aspartame, não haveria, portanto, nenhum risco. Mas ela também critica a metodologia dos autores. Normalmente, para demonstrar o efeito cancerígeno de um produto, os animais são testados por dois anos, e não por toda a vida, como fez a equipe italiana: sendo assim, se evita confundir os resultados com tumores surgindo espontaneamente com a idade. Por outro lado, a EFSA salienta que não há reprodutibilidade entre os estudos realizados no rato e no camundongo, o que torna difícil qualquer extrapolação para seres humanos.

A Rede ambiente e saúde (RES) insiste em sua defesa no princípio da precaução e destaca um paradoxo: se os estudos italianos não respeitam as «boas práticas», os três estudos utilizados para estabelecer a regulamentação do aspartame não fazem mais do que isso. Dois dentre eles, datando da primeira autorização pela FDA, não foram publicados em revistas científicas. Quanto ao terceiro, haveria um conflito de interesses: ele emanaria de um dos maiores fabricantes de aspartame! A polêmica não está fechada.

Os adoçantes apresentam riscos para a saúde?
Desde o começo, a má reputação do aspartame tem prejudicado seriamente a de todos os adoçantes. Entre os mais antigos, a sacarina, o ciclamato de sódio ou o acesulfame de potássio têm sido suspeitos de causar cânceres em animais. A sucralose, o último adoçante recém criado, vendido na França, estaria também associado a leucemias em ratos, de acorco com o CSPI (Center for Science in the Public Interest). De acordo com esta ONG americana até a stevia, de origem natural,  deveria ser evitada, dessa vez por causa dos poucos estudos sobre sua eventual toxicidade.

Para prevenir o excesso de peso e a obesidade, haveria finalmente somente uma solução: evitar açúcares, exceto aqueles encontrados em frutas e legumes. É o conselho de muitos pesquisadores assim como da Agência Francesa de Segurança Sanitária dos Alimentos (Anses), que aponta para alegações de saúde dos adoçantes não fundamentadas. Não há nenhuma evidência que eles façam perder peso. Sendo assim, não existem razões para incentivar o seu consumo no âmbito de uma política de saúde pública.

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