segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

A CHAVE DOS SONHOS. CIÊNCIA INVESTIGA OS RECADOS DO MUNDO ONÍRICO


Encontrar a chave que abre a porta do significado dos sonhos é, desde sempre, um objetivo procurado pelos sonhadores. Agora é a própria ciência que investiga essas mensagens que nosso inconsciente manda para a consciência com o intuito de fazer com que ela tome contato efetivo com os conteúdos que jazem nas profundezas da psique.


Por Christophe Doré - Le Figaro

O que dizem os seus sonhos? O psicólogo Carl Gustav Jung tinha o hábito de fazer esta pergunta aos seus pacientes. Ele conta como ela os deixava muitas vezes perplexos. Não se tratava, no início, de traçar uma interpretação formal do sonho, mas apenas de se lembrar deles, de cogitar se seu conteúdo representava ou não algum interesse, mesmo que fosse de ordem trivial.

Jung, seguindo os passos do pai da psicanálise Sigmund Freud, atribuía um grande interesse aos sonhos que ele via como portas abertas ao inconsciente. Uma espécie de linguagem cifrada da alma. Este interesse pelos sonhos não se limita à idade de ouro da
psicanálise do início do século XX. Ele é universal e cruzou a história. Para começar, papiros egípcios datando de 2000 anos A.C. abrigavam tratados de interpretação dos sonhos. Na ­Babilônia, na Grécia e na Roma antiga, mas também na Idade Média, no Oriente ou no Ocidente, a interpretação dos sonhos tinha um lugar importante. «Há em cada um de nós, mesmo naqueles que parecem perfeitamente ajustados, uma espécie de desejos terríveis, selvagens, sem leis, e isto é realçado pelos pensamentos», explica Platão, na ­República. Então, vimos presságios, sinais dos deuses, símbolos premonitórios de ações futuras nestas histórias construídas quando dormimos, tais como nas alucinações. Na Antiguidade, era costume uma pessoa que tivesse tido um sonho fatídico durante a noite, se abstivesse de qualquer atividade no dia seguinte. Atualmente, é difícil explicar isso para a previdência social, para seu chefe ou seus clientes!

As expectativas em relação aos sonhos não mudaram quase nada. A secreta esperança de ser capaz de interpretá-los para captar o que escondem ainda anima uma grande parte da humanidade. Encontrar a chave dos sonhos é uma busca do Santo Graal à qual o homem ainda não renunciou. Os cientistas começaram agora a demonstrar os mecanismos dos sonhos, partindo do princípio de que a melhor maneira de se saber por que um carro avança é estudar o motor. «Para compreender o sonho, é preciso imaginar todo o trabalho necessário para sua realização", explica o biólogo Jacques Ninio, autor de Au cœur de la mémoire (No coração da memória, Ed. Odile ­Jacob). "Que ferramentas estão disponíveis para construir a imagem e introduzir o movimento? Onde o sonho retira sua matéria-prima e em que estado ele encontra essa matéria-prima à sua disposição? Em seguida, quais são as restrições técnicas no desenvolvimento do cenário, na elaboração dos diálogos, no acompanhamento sonoro?" pergunta Ninio.


Nosso sistema emocional é extremamente ativo
Após a descoberta do sono paradoxal pelo pesquisador francês ­Michel Jouvet, avanços consideráveis na compreensão da função cerebral têm trazido nestes últimos anos respostas ao caráter intrigante dos nossos sonhos. O hipocampo, que desempenha um papel fundamental na conservação das lembranças, e o sistema límbico, que controla as emoções tais como o medo ou a alegria, são muito ativos durante os sonhos. Um deles explicaria porque cenas ou personagens vistos recentemente aparecem nos sonhos. O outro, porque estes sonhos são muitas vezes carregados de sensações fortes.

A ausência de atividade do córtex pré-frontal, sede do pensamento consciente, justifica o caráter muitas vezes ilógico das imagens do sonho. Quanto à proliferação de imagens oníricas confusas, tal fato pode ser explicado pela classificação das informações no cérebro. Este último não tira uma «foto» de um objeto, mas armazena em locais diferentes, sua forma, sua cor, seu tamanho e textura, bem como a dos objetos que lhe dizem respeito. «Se uma das fichas for inacessível em um sonho, um objeto estranho será criado, como por exemplo, um cão com pêlo dourado ou uma cadeira de porcelana », explica Jacques Ninio. O objeto também pode substituir uma palavra quando o cérebro, em pleno sono paradoxal tiver dificuldades para encontrar as chaves da linguagem.

O pintor surrealista Magritte provou ter uma boa intuição com A ­Traição das imagens. Esta tela representa um cachimbo sob o qual ele escreveu  «Isto não é um cachimbo ». Nos sonhos, é frequentemente necessário procurar o que simboliza a imagem do objeto além do próprio objeto. O neurobiólogo Michel Jouvet conta um sonho logo após o falecimento de seu irmão, no qual ele vê uma mão com dedos cortados em uma pia. Ele contou o sonho para sua mãe. Ela contou-lhe então que aos dois anos de idade, apenas começando a falar, Michel Jouvet chamava seu irmão mais velho «Mão». As obras dos psicanalistas estão repletas deste tipo de anedotas que atualmente, alguns cientistas explicam por esta hipótese de representação, na ausência de uma chave de linguagem. Um pianista que é adicionado a uma cena cheia de tumulto pode ser interpretado como uma vontade de desacelerar (tocar piano, para ir devagar). Isto faz o etno-psiquiatra Tobie ­Nathan dizer que  «não há sonhos típicos », e que «um sonho é equivalente à pessoa na sua singularidade ». Em outras palavras, somente Michel Jouvet poderia evocar seu irmão pela imagem desta mão com dedos cortados. Quanto ao aborígene que não sabe o significado da palavra piano, há poucas chances que ele faça aparecer um pianista em uma cena muito tumultuada ao seu gosto.


Uma desconstrução da vida diurna
Essa ideia que, a priori, o sonho permanece singular, não impede que os investigadores e os médicos tentem descobrir regras, categorias, princípios no universo onírico. As estatísticas são úteis. Isso mostra que a grande maioria dos sonhos é bastante insignificante e provam ser desconstruções apenas um pouco cômicas da vida diurna. Trabalhos realizados, sobretudo nos Estados Unidos e no Canadá, a partir de banco de sonhos, apresentaram, todavia, resultados preocupantes. Buscas por palavras-chaves em depoimentos em quantidade significativa permitem descobrir, nos sonhos de um indivíduo, seus centros de interesse, aquele ou aqueles que ele gosta ou rejeita, suas preferências ou suas repugnâncias… Diga-me com o que sonhas e te direi quem és!

Os resultados de uma pesquisa causaram sensação há dois anos. Uma equipe de neurobiologistas japoneses decifrou sonhos por meio de uma ressonância magnética funcional (IRMF) ao gravar a atividade do cérebro. Três pessoas foram sistematicamente acordadas assim que se encontravam, há alguns minutos, em uma fase de sono paradoxal. Os cientistas lhes pediram então que contassem seu sonho antes de recomeçar a experiência. Duzentos despertares mais tarde, eles dispunham de três cobaias esgotadas, mas de um banco de dados compilado com a  correspondência entre uma atividade cerebral específica e imagens listadas por temas como os alimentos, as mulheres, um carro, nadar, etc. Com este dicionário de correspondências, eles adivinharam em seguida, com uma precisão de cerca de 75 à 80%, ao utilizar novamente a ressonância magnética, o sonho de suas cobaias... antes mesmo de lhes perguntar!


Quando Júlio César matou sua mãe
A máquina de decifrar sonhos, muitas vezes anunciada, não vai demorar em aparecer. Na opinião de Tobie ­Nathan, ela passará a existir em cerca de cinquenta anos e colocará finalmente os sonhos na sede de uma construção analisável, ao se libertar  somente do relato do sonhador, muitas vezes impreciso e hesitante.
Mas esses avanços na área da neurociência quase não permitiram que psiquiatras e psicanalistas progredissem na análise dos sonhos, considerada para Freud e Jung, como uma ferramenta terapêutica. «Mesmo se os sonhos compartilham características comuns, o conteúdo de um sonho permanece exclusivo e seu sentido pertence a um campo aos quais métodos e ferramentas das neurociências não fornecem acesso», lamenta Elizabeth Hennevin, professora de neurociências em Nanterre. «A interpretação permanece uma questão complicada, acrescenta Tobie Nathan. Um sonho não pode ser desmontado com exatidão. Ele não permite dizer que tal coisa significa sempre outra coisa. Encontram-se raramente significados diretos. O problema é oriundo do fato que há tantos elementos possíveis nos sonhos quanto ideias no mundo.»


A anedota de um sonho de Júlio César, narrada pela terapeuta Christiane Riedel, fundadora da academia para a interpretação dos sonhos, é divertida a este respeito. Aos 31 anos de idade, Júlio César é apenas um magistrado na Espanha. Ele sonha então que estupra sua mãe. Confuso, ele vai interrogar um sacerdote que lhe dá seu ponto de vista: César violará Roma, sua pátria, impondo-lhe sua vontade apesar das resistências da cidade. Suetônio vai além ao afirmar que os sacerdotes «alegam que este sonho lhe anuncia o império do mundo, que esta mãe que ele viu submetida a ele, era ninguém menos que a Terra, nossa mãe comum». César assumiu rapidamente o caminho de Roma para o destino que conhecemos. Se ele tivesse consultado um psiquiatra, ele talvez tivesse chegado a uma outra interpretação...

Os pesadelos que causam tantos problemas para Freud (se o sonho é uma realização do desejo, mesmo reprimido, por que existem sonhos de sensações dolorosas?) também foram bastante estudados por médicos e cientistas. Eles descobriram que alguns pesadelos não se construíam nas fases do sono paradoxal, mas na do sono lento e profundo. Estes sonhos estão marcados por uma forte carga emocional podendo ir até o terror noturno, com um retorno à realidade difícil, especialmente para as crianças. Para os pesadelos do sono paradoxal, relações causais também foram identificadas. Uma pessoa estressada ou neurótica vai encenar regularmente em seus sonhos, situações de mal-estar angustiante. Isto é ainda mais verdadeiro para uma pessoa que sofreu um trauma psicológico profundo, como um bombardeio, uma agressão, um perigo de morte ou algo percebido como tal. Assim que ela adormecer, o pesadelo volta, como se o cérebro repetisse incessantemente o trauma, por vezes representado alegoricamente, para desconstruí-lo. Logo compreendemos que o indivíduo tende a fugir do sono.


Uma fonte de criatividade e de invenção
Durante a Segunda Guerra Mundial, psiquiatras americanos distribuíam barbitúricos aos soldados traumatizados até que seu pesadelo os levasse a um «sonho de final feliz ». Forçado a dormir, o piloto de um bombardeiro que havia  sido destruído, ocasionando a perda de todos os seus companheiros, acabou sonhando que ele aterrissava com seu avião em um lago onde encontrou todos os seus companheiros, bebendo ao redor de uma área da base.

O que preocupa hoje nos novos pressupostos dos neurocientistas que vêm no sonho uma ferramenta de regulação das emoções ou uma espécie de antivírus responsável por atualizar as bases psicológicas de um indivíduo é que eles se juntam à ideia ancestral e à visão de Jung, que o sonho desempenha um papel importante em nossas vidas. Ele tem uma função que pode chegar a ações positivas para que possamos considerá-las. «Isto é muito significativo para artistas e pesquisadores, confirma Christiane Riedel. Quase poderia se dizer que os músicos e artistas são inspirados por seus sonhos, que são a fonte de sua criatividade e invenção.»

«Um sonho é um sinal por vezes muito barulhento, mas útil, conclui Tobie Nathan. Fazer o trabalho necessário para se lembrar e decifrá-lo, significa ter o tempo de abrir uma carta e lê-la. Mesmo se tudo o que estiver escrito não estiver claro de imediato. A interpretação do sonho é cultural. Ela é refinada com o tempo.»

Finalmente, interessar-se pelos sonhos seria muito pragmático. Um meio de se ancorar na realidade e não fugir dela. O oposto do que se poderia pensar à primeira vista. Os sonhos não param de nos surpreender.

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