terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Quem diria! É Formada a Primeira Turma de Licenciados em Letras pela UFPB Virtual, de Itaporanga

Quem diria! É Formada a Primeira Turma de Licenciados em Letras pela UFPB Virtual, de Itaporanga
(Reynollds Augusto)

Itaporanga sempre sonhou em possuir uma Universidade Pública e, agora, com a ajuda da tecnologia, já tem. O curso virtual/presencial já chegou antes à nossa terra abençoada e nesse dia 26 de dezembro foi formada a primeira turma, com cerca de vinte e dois formandos e entre eles estava o meu amigo, irmão de ideal espírita, Manoel Ferreira.
O curso começou com mais de quarentas alunos, mas quando alguns entenderam que não era moleza, desistiram. Não tiveram forças para continuar.
O curso virtual/presencial é completo, pois exige do aluno muita leitura e reflexão sobre o aprendizado. Essa é a melhor forma de aprendizado e é o futuro que chegou, mais cedo, sendo antecipado. Diminui distâncias, evita separações e qualifica, com mérito. o aluno. Quem pensa diferente é bom não se aventurar.
                 Mas, foi uma noite de festa acadêmica, em um ambiente preparado para tal. Muita organização e um ritual próprio para o acontecimento, com muita alegria no ar  e os sonhos no coração. Aquele bom orgulho que denota o fim de uma etapa conquistada, com muitas possibilidades. Eu dei aquela viajada no tempo e me lembrei de colegas-irmãos, na época que me licenciei em História, pela Fip: Ricardo, Betânia, Herbene, Sônia, Hélia, Adail ,França... e tantos outros, que fizeram parte de minha história e que, provavelmente, não mais os verei nessa encarnação. Todos nós de Itaporanga, santa Luzia, Piancó, Coremas e etc. éramos conduzidos pelos "busões" da vida e protegidos pelo Deus das possibilidades.
                  Lembrei-me dos colegas da graduação em Direito, da cidade de Sousa, e principalmente do meu amigo poeta, Israel, da cidade de São José de Piranhas. Esse, o acadêmico, é, com certeza, um dos melhores momentos da vida do espírito em evolução. A emoção tomou conta de mim, a saudade acionou o passado feliz, que nunca passa.
           O Meu amigo Manoel era só alegria e nesse momento da vida, estar licenciado, em uma universidade de qualidade, UFPB, tendo como madrinha a linda filha do coração, foi um momento que ficará gravado para todo o sempre na consciência profunda do espírito imortal que somos todos. Sim, pois as nossas aquisições intelectuais e morais sustentam a vida infinda e carregamos conosco essas reais conquistas. Tem gente que pensa que é o tal porque têm valores materiais, que ficam, e se esquecem de adquirir os valores da alma que são aquisições que serão nossos advogados na hora de voltar para o mundo espiritual, que chega como um passe de mágica, pois, segundo Einstein, o tempo é uma grande ilusão e estamos na contagem regressiva.
         Senti a falta dos muitos prefeitos da região, que foram convidados e dos vereadores. Ainda bem que o de Itaporanga, Dr Djaci, se fez presente e os representou.Acho que os nossos administradores não despertaram, ainda, para a  importância do curso do futuro, que já chegou e alguns formando me confidenciaram que a estrutura do pólo só não é melhor , por falta dessa visão política administrativa. Mas é normal e tudo que é novo causa receios.
Quem falou bonito, enfatizando os receios, as noites de sonos perdidas, a diminuição de contato com os amigos e com os familiares, foi a oradora ANA MARIA. Um discurso emocionado, que emocionou a todos e que falou com detalhes daquela luta de quatro anos e que naquele momento se finda, com a etapa vencida. Vi o brilho nos olhos de cada um, e dos familiares, na hora da colação de grau. Coisa bonita de se ver e imagens belas de serem guardadas.
Por final foi a fala do Doutor em Lingüística, Jan Edson Rodrigues, representando o reitor da UFPB, que fez um discurso emocionado e técnico, enfatizando:
“... Vocês não se formaram apenas em lingüística, em literatura, vocês se formaram, também, em informática. Vocês travaram lutas, batalhas constantes, para dominar aquela plataforma, aquele ambiente virtual de aprendizagem. Vocês carregam isso na bagagem de vocês... aproveitar um curso cujo nível de exigência de preparação é mais alto ou igual àquele da modalidade presencial.... fazer um curso superior em uma universidade pública, gratuita e de qualidade, como costumam ser as universidades públicas do Brasil é um fato histórico em si e um privilégio para vocês formandos...
Agora é seguir a estrada que está apenas começando.
Parabéns UFPB!
Parabéns todos os formandos!
Ao Manoel um parabéns especial,  pelo seu esforço e persistência.
Lembro-me de um episódio engraçado, que aconteceu com o mesmo e que ele contou na aula da saudade, com o aplauso de todos: quando no início do curso, apesar de ter estudado muito, perdera uma cadeira e veio aquela tristeza imensa e ele, ao chegar a casa, confidenciava a sua filha menor que desistiria, pois estava muito difícil e a filha querida lhe deu uma lição de moral.
- Mas papai, e cadê a persistência e o esforço para nunca desistir, que você me ensinou? Pior foi eu, que arrumei a minha boneca, ficou a mais bonita de todas e mesmo assim perdi o concurso de bonecas daqui de Boa Ventura. Lembra? . Mas fui até o fim e não desisti e nunca chorei.

PENSE NISSO! MAS PENSE AGORA MESMO.



segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Acontece Mais um Natal Fraterno do Centro Espírita Jesus de Nazareth

Acontece Mais um Natal Fraterno do Centro Espírita Jesus de Nazareth
(Reynollds Augusto)

É tradicional a comemoração do Natal realizada pelo Centro Espírita Jesus de Nazareth, da cidade de Itaporanga. O momento é especial, pois reúne todos os trabalhadores da casa espírita para confeccionar os gostosos jantares que são doados às famílias carentes. São mais de quinhentas quentinhas distribuídas em uma festa que encanta a alma enobrece o coração. Este ano os trabalhos foram coordenados por Alberlando Araujo, o atual presidente, e Adriana, a sua esposa, que não mediu esforços para que a Festa de Fim de ano, da casa espírita, pudesse ser realizada com o brilho de sempre.
A festa tomou proporções maiores e pensar que tudo começou com o nosso amigo FERNÃO E MARIA, há mais de quarenta anos, sempre contribuindo para fazer famílias e crianças felizes, nessa que é a verdadeira festa da Natal.
 A sociedade bondosa de Itaporanga está de parabéns, pois sem o seu desprendimento não seria possível a realização de tão grandiosa festa. Presentes doados, cereais, frangos, no reconhecimento pleno da seriedade do movimento anual e tradicional. Até dinheiro doado, por baixo da porta, de uma alma querida, que não quis se identificar, mas que resolveu contribuir, de coração, e sem interesse para esse momento mágico, houve. O Centro Espírita Jesus de Nazareth e todas aquelas famílias agradecem a doação.
Quem fez bonito e suou a caminha para realizar a festa conosco foi a juventude forte da maçonaria. A garotada trabalhou muito e mostrou o quanto a energia juvenil bem canalizada pode produzir para si e para a sociedade maravilhas. Nada de jovem estar em ponta de bares bebendo álcool e achando que estão se divertindo com a droga que, quando não mata o corpo, mata a moral,  e é o motivo de muitos desastres familiares e sim trabalhando com a sociedade para o bem da humanidade.
A Ordem Demolay, que quero parabenizar em nome de um de seus integrantes, Danilo Jonathan, filho dos amigos Izabel e Vanderlei Egídio, realmente contribui muito para o sucesso da festa. Para quem não sabe a ordem Demolay é uma sociedade discreta, com base em princípios filosóficos, fraternais, iniciativos e filantrópicos, patrocinada pela grande Maçonaria, para jovens do sexo masculino, com a idade entre 12 e os 21 anos e existe desde o ano de 1921.
O amigo Ubiramar, filho de lourdinha, fez  a criançada sorrir e chorar. Ele se fantaziou de Papai Noel e brincou com todos os perqueninos, tirou fotos, e encantou a todos com esse que é um dos trabalhadores de Jesus de Nazareth . Ele edistribui presentes materiais e Jesus distribui a vida sempre. Papai Noel alegra a criançada por um momento e Jesus ensina a viver com alegria por toda a existência, fora e usando esse corpo, que está se desgastando a cada dia.
Se faz necessário mencionar os trabalhadores do Cesb  - Centro Espírita seareiros do Bem , da cidade de Boa Ventura. A quem os cumprimento nas pessoas da Presidente Angela Gouveia e de seu secratário Nivaldo.
Uma festa bonita e cheia de luzes emocionais.
Vai o nosso reconhecimento a todos os supermercados, lojas,  mercadinhos, às duas maçonaria de Itaporanga, porque sem esses parceiros do bem seria difícil a realização do  projeto com o brilho de sempre.
O Centro Espírita Jesus de Nazareth oferece o Natal Fraterno do ano de 2011, aos sempre trabalhadores Maria e seu Fernão, que estão felizes pelo continuar da obra
Muita paz a todos FELIZ NATAL
O ano que vem tem mais, com a ajuda de todos.


FELIZ 2012

domingo, 25 de dezembro de 2011

DOCES DE TABULEIRO

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A história da cozinha brasileira – elementos indígenas, portugueses, africanos, o que nos veio da França, a presença do Oriente por intermédio de Portugal e da Espanha, molhos, condutos, aparelhagem doméstica, superstições relativas à alimentação, dietas, tabus, condimentos, alguns com intenção mágica, como me informou um observador excelente, o senhor José Pires de Oliveira, de São Paulo – é assunto merecedor de inquéritos e sistemáticas para o quadro realístico de nossa etnografia tradicional. As modificações locais, os cardápios de sobremesa, a carta dos alimentos servidos nas festas velhas, batizado, aniversário, casamento, nos vários pontos do Brasil e de acordo com os recursos peculiares às diversas regiões, enfim a geografia culinária do Brasil está esperando que alguém cumpra o seu dever.

Os estudos de Manuel Querino, Sodré Viana, Bernardino José de Souza bem valem reedição. Há um ensaio de Nina Rodrigues, escrito no Maranhão e publicado em 1888, sobre o Regime alimentar no Norte do Brasil. Sobre o extremo norte há um outro de Araújo Sima, que não pude consultar. Gilberto Freyre examinou os doces da casa-grande (Açúcar. Ed. José Olympio, 1939). O interesse científico pela alimentação determinou uma série de monografias e livros, fixando espécies e sugerindo padrões. O senhor A. J. de Sampaio publicou Alimentação sertaneja e do interior da Amazônia (Brasiliana, 238). Hildegardes Viana, uma deliciosa Cozinha baiana (Bahia, 1955). Há realmente, uma bibliografia volumosa, mas essencialmente ligada à nutrologia e à dietologia. Os etnógrafos ainda não tiveram interesse positivo por esse campo gostoso e essencial.

Aos etnógrafos não apareceu sedução maior para uma tentativa de sistematização, pesquisas nas regiões naturais, riscando as características locais, lindando as fronteiras das contigüidades. Extremo norte, nordeste, leste, centro, sul, fixando as áreas de certos alimentos típicos, condutos, temperos, horários de refeições, etc. Há um material extenso e já divulgado, mas esparso, espalhado, difuso, pedindo coordenação clara e certa.

Decorrentemente, estudando os bolos e os doces, os triviais e os festivos, havia ocasião de examinar a ciência do papel-recortado, segredos de senhoras-amas de filha-família, com certos tipos conservados como um direito autoral de grupos seletos. Modelos que são obras de arte, reminiscências puras de exemplos vindos de Portugal. Verdadeira renda de papel enfeitando bandejas, bolos redondos, caixas poligonais, cestas, cartuchos com farinha de castanha, farinha de milho, castanhas cobertas com açúcar. Possuo uma pequena coleção desses papéis recortados. Algumas peças têm mais de cem anos. São dignos de uma observação pública, como fizeram os portugueses em 1936, na Exposição de Arte Popular, em Lisboa.

Em Portugal, esses assuntos estão apaixonando etnógrafos e artistas. O senhor Emanuel Ribeiro publicou, em 1928, O que é doce nunca amargou e A arte do papel recortado em Portugal, 1933. Conheço a monografia do senhor Castro e Brito sobre a Doçaria de Beja na tradição provincial, e a do senhor Guilherme Cardim – Cozinha portuguesa e pratos regionais – com um plano simples de instalação de hotéis típicos e estalagens de cunho tradicionalista, excelente ambientação para turismo e análise etnográfica.

Fomos logo indústria do açúcar ao amanhecer para o mundo. O carro de boi gemeu pelo Recôncavo Baiano, trazendo canas para as moendas verticais. Assim, nas várzeas ao redor de Olinda. Os poetas da Holanda, glorificando a conquista, deram o título sugestivo de Suikerland, terra do açúcar à região onde a Geoctroyerd Westindische Companie chantara sua bandeira de posse. Cem anos depois no outro engraçadíssimo Anatômico Jocoso, a genealogia de uma sécia entroncava, simbolicamente, com um fidalgo brasileiro chamado dom Açúcar, homem de grande engenho, inventor de várias gulodices.

Muito doce não se popularizou no Brasil pela dificuldade de sua fabricação. Pelo tempo que tomava. Ficou sendo como vestido novo para dia de festa. Esse doce aparecia nas bandejas enfeitadas, nas tardes de Natal, para a Ceia, ou para a Semana Santa, quando, ainda alcancei, havia o hábito de pedir-se o jejum em versos para a consoada.

As mulheres pobres faziam doces pobres, bem simples, rápidos, de vendagem quase imediata. Havia uma intuição psicológica sobre as simpatias do mercado consumidor e uma obediência rigorosa às praxes. Certos doces só podiam aparecer em certas épocas. Doce seco, pela Noite de Festa; filhós, pelo Carnaval; canjica, pelo São João. Não digam que a produção do milho força sua entrada nas mesas. Têm-se milho quase o ano inteiro. Mas canjica, pamonha, só tem graça, só senta, pelo São João.

Os doces de tabuleiro são como uma constante etnográfica. Indicam a democratização, o coletivismo de certas fórmulas antigamente dedicadas às festas aristocráticas ou mundanas, beijos, raivas, sequilhos, alfenins, suspiros. Outros que vieram do povo, sem especiaria, como a cocada, cuscuz, farinha de castanha ou de milho, puxa-puxa feito de mel de engenho. Outros foram experiências, golpes de gênio que conseguiram vitória para todos os sabores.

Os dois elementos predominantes na doçaria nacional foram estranhos à terra brasileira. O coco, asiático, e o açúcar, vindo das ilhas, sinônimo da Madeira. A mão da mulher branca iniciou a maravilha das combinações, fazendo valer os recursos do Brasil ainda bravio. Adoçou a castanha, descascou o abacaxi, utilizou o milho. A mestiça, a , a mucama continuaram o reinado. Tinham sido alunas.

Mas não houve o aproveitamento de todas as frutas. Algumas continuaram arreadas dos requintes e amaciamentos. Permanecem insubmissas a Pedro Álvares Cabral e seus sucessores. O ingá, o jatobá, o guajiru, ubaia, camboim, maçaranduba, jabuticabas, juá, cajaranas só permitem aproximação respeitando-se-lhes a personalidade do século XVI. Se mereceram exame, foram reprovadas por inadaptação subseqüente.

Os doces de tabuleiro são, pelo nordeste, denominados engodos, isto é, enganos. Enganavam ou adiavam a fome.

O tabuleiro tem suas "constantes" através do tempo. Conserva sua iluminação própria. Uma lamparina de querosene, gás, como dizem na cidade do Natal. Com toda a iluminação elétrica, alto-falantes gritando, automóveis, rádios, os tabuleiros acendem a fita trêmula daquelas luzes vermelhas, enroladas de fumaça. Era assim durante as Santas Missões de frei Serafim de Catânia, em 1843. Nada mudaram.

A mulher que faz a venda, sinônimo de tabuleiro de doces, guarda uma lamparina unicamente para sair à noite, nas festas, com a luz. Não serve para outro mister em casa. É um pormenor que se tornou maquinal pela antigüidade. Tabuleiro com toalha branca, os bolos e doces colocados em fileiras, os que melam, longe dos secos. Num ângulo, a lamparina. Acendem a luz como num cerimonial, iniciando o mercado. Primeira venda sempre a dinheiro, para não atrasar. Dinheiro chama dinheiro.

Só ultimamente encontrei frutas vendidas à noite. Frutas, só durante o dia eram expostas. No máximo, até a tarde. Mas as frutas compradas de noite são paredes para beber-se aguardente. Um gole e uma dentada equilibram.

Lembro apenas esses doces pobres e populares, outrora vendidos a vintém. Ainda estão resistindo nos tabuleiros, oferecidos nas noites de Novena da Padroeira.

Na cidade do Natal, na festa de Nossa Senhora da Apresentação; em João Pessoa, na festa de Nossa Senhora das Neves; no Recife, na festa do Poço da Panela; na festa de Nossa Senhora de Nazaré, em Belém do Pará; na novena do Senhor do Bonfim, na Bahia, o campo está virgem, cutucando o apetite alheio. Duram esses doces porque têm o seu humilde mercado consumidor, teimoso na predileção secular. O moleque, já dizendo nô-bom alô mai frende, tira o remastigado chicle da boca e volta aos velhos doces, que seu avô também comeu na mesma época e feição.

Tapioca: tipáca, apertado, espremido. De goma, seca ou com leite de coco e açúcar branco. Ambos os tipos envolvidos em folhas de bananeira. Há uma abundante referência nos cronistas coloniais. Lógico é que o indígena, criador da tapioca, nunca utilizara o açúcar nem a canela, decorativa e saborosa. Uma modificação do mestiço brasileiro é a tapioca de coco, leite do coco, sem açúcar. É prato do almoço sertanejo e, outrora, indispensável nas cidades do norte, pela manhã e na ceia. Ceia às seis horas da tarde, quando o sino batia as Trindades.

Beiju: mbeiú, meiú, contraído, compacto, enrolado, conjunto. De goma de mandioca, mais grossa. Com leite de coco, beiju de coco; sem coco, beiju de goma. O tupi conhecia também o beijuaçu, grandão, para distribuição nas rodas guerreiras ou beberronas; beijucica, enroladinho, também chamado punho ou crespo, delicadíssimo; beijuquira, com mistura do sumo ou mesmo pedaços de uma fruta, só usado ainda no Amazonas e interior do Pará; beijuticanga, torrado duas vezes, sequinho, para gente doente ou muito enjoada de gosto. Devia saboreá-lo o tuixaua que fosse grã-fimo.

Pamonha: pomong, pegajoso, viscoso, úmido. É uma das tradicionais comidas-de-milho rituais nas festas de São João a São Pedro e São Paulo. Creio ser aperfeiçoamento mestiço, pela aplicação do leite de coco, inseparável, e açúcar. Apresentado com a embalagem da folha de bananeira ou do próprio milho. O indígena não a podia ter conhecido como a saboreamos atualmente.

Canjica: canji, mole, acanji, grão mole cozido. A primeira comida-de-milho. No norte é uma papa de milho verde, leve, substancial, enfeitada com desenhos de canela. Confundida no sul com o mungunzá ou mugunzá, com ou sem carne, de origem africana, comida diária para a escravaria que trabalhava nos eitos dos canaviais. Os sertanejos comem o mugunzá com carne de gado ou carneiro, com ossos no almoço.

Alfenim: al-fenie, do árabe, valendo o-que-é-branco, alvo. Massa de açúcar branco, uma das gulodices orientais. Em Portugal, já era popularíssima em fins do século XV e princípios do XVI. Citado em Gil Vicente, Jorge Ferreira e Antônio Preste. Era um doce fino, sem as complicações portuguesas e brasileiras, onde tomou formas humanas, de animais, flores, objetos de uso, vasos, cachimbos, estrelas. Sempre com pequeninos desenhos vermelhos. É açúcar e água, apenas. Passa-se gosma nas mãos na hora de puxar o fio no ponto do alfenim. De sua fragilidade e mimo restou a comparação melindroso como alfenim. Pertenceu à doçaria dos conventos, ofertado nos outeiros e nas festas de recebimento nas grades, nos abadessados portugueses no século XVIII.

Doce seco: a casca e a farinha de mandioca, fina, feito angu, seca, com outra porção de farinha para abrir o ponto. A espécie, recheio, é feita de farinha de mandioca, sessada em peneira fina, gengibre, argelim, castanha de caju, pimenta-do-reino, cravo, erva-doce, mel de rapadura. É um dos doces típicos na Noite de Festa, Dia do Natal, São João, São Pedro, Ano-Novo.

Beijos: coco ralado, açúcar, ovos. A graça especial é a variedade dos invólucros. Pertenceu à doçaria dos conventos fidalgos de Portugal.

Sequilho: outro doce português, secular e fidalgo. No Brasil democratizou-se. E privativo do povo, ignorado pelos paladares requintados. Formas redondas e chatas. Goma, açúcar, coco. Massa fina. Quase nenhuma transformação dos tipos velhíssimos para os atuais.

Raiva: docinho freirático, cheirando a Ocivelas e dom João V. Pequenino, arredondado, fácil de mastigar, desfazendo-se na boca. Goma, leite de coco, puro, sem água, açúcar. Fogo brando. Esfriando, ornamentam-no com leves toques de gema de ovo cru.

Filhós: já registrados no século XIV. Popularíssimos em Portugal. Doce do Carnaval. Filinto Elísio, exilado num Paris melancólico de 1808, lamentava-se, vendo o Carnaval francês: "Um dia de Comadres, sem filhoses!" Servidos sob polvilho de açúcar. Nalguns pontos do Brasil obriga à calda de açúcar.

Cuscuz: do árabe, iguaria de milho, de arroz, etc. Também de goma de mandioca, para nós, brasileiros. De goma, leva açúcar. Há leite de coco, prendendo a massa e dando sabor. Vezes põem açúcar nesse leite. Era o pão nosso cotidiano para funcionários públicos e caixeiros do comércio provinciano, até a primeira década do século XX, pelas terras amáveis do nordeste. O pão era para gente mais dinheirosa.

Quem trouxe o cuscuz para o Brasil foi o negro africano.

Suspiro: clara de ovo, açúcar branco, pingos de limão. Docinho protocolar para peraltas e sécias sob El-Rei dom José e a senhora dona Maria I. Doce de grades, freirático, romântico, sentimental. No Brasil há de muitos volumes, até enormes, obstinadamente ótimos. Merengues na Espanha e fala castelhana.

Pé-de-moleque: Espécie de bolo preto português. Moraes não lhe abriu o Dicionário, como fez, para outros doces, todos devorados no seu engenho pernambucano.

O conde d’Aurora fez-me comer, no Porto, um pé-de-moleque feito pela esposa, fiel à receita levada do Brasil por um dos antepassados, Lavradio, vice-rei no século XVII.

Cocada: nome copyright by Portugal. Doce de coco com rapadura, ponto grosso. Cocada-escura, cocada-de-moleque, bruta, dando sede, fazendo divina toda água. O mais popular de todos os doces populares do nordeste.

Arroz-doce: mandado de Portugal. Popular na Europa. Pudim de arroz na Inglaterra. Desenhos de canela em cima. Confeitos da mesma massa, furtados pelos meninos da casa.

Farinha de castanha: os cronistas do Brasil menino registaram a predileção do indígena pelo caju e pela castanha. Marcgrave discorda, informando que a castanha era preferida. Comiam-na de mil jeitos, inclusive pilada como farinha. Não havia açúcar. Quando este apareceu, o engodo nasceu do tempo de Caramuru. E é nosso contemporâneo.

Estes são os doces de tabuleiro para público mirim e guaçu, ao lado do rolete de cana, mole e doce, próprio para dentadura de elefante; farinha de milho, indigesta como um relatório; toras de abacaxi, garapa de cana, doce ou picada (azeda).

Os xaropes de frutas, com água gelada, são nalgumas bocas saudosistas denominados capilé.

Resta evocar o imperturbável godero, espiando, sem-dinheiro, com a boca cheia d’água, goderando uma alma caridosa. Vez por outra ganha, milagrosamente, um doce enjeitado e pago. Passa a noite rodando os tabuleiros, interessado, fiscalizando trocos e dando palpites dispensáveis. Não furta. É candidato a suplência de gerente. Não há tabuleiro sem godero, um ou vários. Vou citar Horácio: Tempus fugit. E cito o povo:

Godero me disse
Que goderasse
Comesse o dos outros
E o meu guardasse…

(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil)

jangada brasil